Sófocles, o mais clássico dos tragediógrafos

por Rodrigo Morais

Série Os Grandes Poetas Trágicos

Vinte e nove anos mais jovem que Ésquilo, Sófocles foi o mais bem-sucedido de todos os poetas trágicos remanescentes. Para confirmar semelhante afirmação, dois argumentos bastam: em primeiro lugar, o fato de ter sido ele o maior ganhador dos concursos trágicos instituídos pela cidade-estado de Atenas; em segundo lugar porque, ao escrever sua famosa Poética, provavelmente o primeiro texto de crítica literária e teatral da história, Aristóteles apontaria sua obra, em especial Édipo Rei, como o modelo da tragédia perfeita, modelo esse que se tornaria, doravante, paradigmático – fazendo uso de uma palavra gasta. Sófocles escreveu provavelmente 123 peças e obteve 24 vitórias nos concursos, recorde absoluto. Nas oportunidades em que não figurou na primeira colocação, jamais ficou abaixo do segundo lugar. Influenciado pelo filosofia de Sócrates, seu contemporâneo, Sófocles foi o mais clássico dos tragediógrafos. Sua obra, a meio caminho entre a religiosidade exacerbada de Ésquilo e o individualismo incipiente de Eurípides, destaca-se como exemplo de equilíbrio, simetria e proporção, características básicas do conceito primitivo de “clássico”.
 
 Σοφοκλῆς, 496 a.C. – 406 a.C.
Nascido em 496 a.C. na cidade de Colono, espécie de subúrbio de Atenas, Sófocles teve uma vida longeva, morrendo com noventa anos em 406. Acompanhou, in loco, todo o período de ascensão, apogeu, declínio e queda da democracia ateniense, das reformas de Clístenes, considerado o “pai” desse sistema político, até a derrota para Esparta na Guerra do Peloponeso, que praticamente decretou seu fim. Filho de um rico mercador, desempenhou inúmeras funções de relevo nos quadros do Estado ateniense, que aqui não cabe detalhar, mas que, de todo modo, denotam sua posição elevada dentro daquela sociedade que marcou – e como! – toda uma época. Tamanho prestígio social teriam lhe permitido não só compor mas também encenar suas tragédias, atividade que tanto Ésquilo como Eurípides não tiveram a oportunidade (ou seria a iniciativa?) de exercer. Ainda que tenha produzido uma obra deveras extensa, somente sete de suas peças, assim como aconteceu com Ésquilo, sobreviveram em sua forma completa: Ájax (data incerta, anterior a 441 a.C.), Antígona (441 a.C.), As Traquínias (data incerta, talvez um pouco antes de 430 a.C.), Édipo Rei (provavelmente 430 a.C.),Electra (413 a.C.), Filoctetes (409 a.C.) e Édipo em Colono (401 a.C.).
 
Antígona perante a morte de Polinice, Nikiphoros Lytras, 1865
Segundo Aristóteles, se Ésquilo foi o primeiro poeta trágico a aumentar de um para dois o número de atores, coube a Sófocles “a introdução de um terceiro ator e do cenário” (IV-20). Outra passagem fundamental da Poética, que não poderia ficar de fora de um texto como este, diz respeito ao cotejo que o filósofo macedônio empreendeu entre as personagens sofoclianas e as euripidianas: “[Sófocles] representava as pessoas como deveriam ser e Eurípides, como eram” (XXV-166). Isso nos remete à já referida influência que a nascente filosofia socrática exerceu sobre a arte de Sófocles, que por sua vez está relacionada à questão, tratada no texto anterior da série que ora apresentamos, do declínio do coro e da “laicização” ocorrida na tragédia ática ao longo dos anos. Sábato Magaldi, em O Texto no Teatro, reportando-se à última passagem citada da Poética, assim se pronunciou a propósito: “A idealidade sofocliana teve profunda repercussão na tragédia, se comparada ao instrumento que a antecedeu. As criações de Ésquilo ainda são bonecos nas mãos do destino, exercendo-se sobre elas o arbítrio inescrutável dos deuses. Ao pintar os homens como ‘devem ser’, Sófocles lhes insuflou consciência e vontade, o que diminui a parte divina, em proveito da presença das personagens.” Deixando de lado a alçada aristotélica, cabe agora dizer que, se Édipo Rei, a tragédia das tragédias na visão do autor de Ética a Nicômaco, é hoje, sem dúvida, a mais conhecida de todas as peças produzidas no século X da antiguidade helênica, isso se deve menos aos elogios estéticos presentes na Poética do que à publicação, em 1900, de uma obra “científica” chamada, na língua original, Die Traumdeutung. O autor da façanha, os leitores do Isso Compensa são capazes de deduzir, foi o médico austríaco Sigmund Freud, inventor do genial e controverso conceito mundialmente conhecido como “complexo de Édipo”, abordado pela primeira vez em A Interpretação dos Sonhos. Desde então, a tragédia de Sófocles, criada a partir de um mito popular antigo, e a evocação psicanalítica de que dela Freud fez uso, tornaram-se indissociáveis.
 
 Édipo e a Esfinge, Jean-Auguste Dominique Ingres, 1808
 
Do dia para a noite, passou a ser praticamente impossível aproximar-se de Édipo Rei – e também de Electra, sua equivalente do sexo feminino – sem o anteparo freudiano, como se ele sempre tivesse existido. No rastro da teoria psicanalítica, Édipo Rei tornou-se, muito provavelmente, a mais estudada e a mais montada de todas as tragédias, fazendo com que, em consequência disso, outras maravilhas deixadas por Sófocles ficassem um tanto na penumbra, raramente sendo revisitadas por encenadores modernos e contemporâneos. Um bom exemplo, plenamente à nossa mão, para corroborar o quanto Freud mudou a visão que hoje temos dessa peça, pode ser visto na adaptação cinematográfica levada a cabo pelo diretor italiano Pier Paolo Pasolini. Seu filme, de 1967, é declaradamente freudiano. Não bastasse o prólogo, obviamente inexistente na tragédia, mostrando um menininho insone que, ao flagrar, na varanda de seu quarto, o pai indo deitar-se com a mãe, ergue os bracinhos (como se pedisse colo) e começa a chorar, Pasolini ainda por cima colocou no papel de Jocasta a lindíssima (e senhoríssima) Silvana Mangano. Quem não teria seus complexos edipianos, por mais sublimados que estejam, reavivados pela presença magnética e, por que não dizer, sensual, de Mangano?
Edipo Re, Pier Paolo Pasolini, 1967
Curiosamente, ao que tudo indica, Sófocles, o homem que recriou o mito de Édipo e o legou à humanidade, passou incólume, na medida do possível, pelo complexo do qual acabaria se transformando numa espécie de padrinho de batismo. Embora os dados que temos sobre a vida de pessoas que viveram há tanto tempo não sejam confiáveis, os biógrafos de Sófocles costumam atribuir-lhe uma existência bastante tranquila e feliz. Mais do que isso, se nos é permitido adentrar no terreno sempre fértil da fofoca, segundo dizem, Sófocles foi um verdadeiro atleta de alcova, que manteve-se ativo sexualmente até perto do final de sua longa vida, fazendo filhos e mais filhos numa era pré-Viagra. O saudoso jornalista Paulo Francis, a quem sempre podíamos contar para uma boa indiscrição, assim se referiu em relação à vida sexual do grande poeta trágico: “Sófocles, quando broxou, tinha oitenta anos. Se disse aliviado em versos extraordinários (a tragédia grega, se tem uma mensagem, é chauvinista). É que o homem precisa conquistar a paixão por mulheres, a paixão que é representada pela carnalidade das mulheres, e criar um mundo de leis e de transcendência espiritual. É chato para as moças, mas a verdade poética, apenas, não filosófica, é essa.” Salvo engano, outro artista tão priápico como Sófocles só apareceria séculos depois, em nossa própria era, e atendia pelo nome de Charles Chaplin, mais um gênio a fazer filhos já quase nonagenário. Mas isso, convenhamos, já é uma outra história…
O que chegou de Sófocles a nós:
Ájax
Antígona
As Traquínias
Édipo Rei
Electra
Filoctetes
Édipo em Colono

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