Shakespeare portraits: meia dúzia de controversos retratos do Bardo

por Homero Nunes
A figura de Shakespeare ilustra cartazes, obras, livros e, nestes 450 anos, sites e blogs e perfis mundo afora. Contudo, não se tem uma imagem realmente confiável do Bardo, nem uma pintura que não tenha sido colocada em questão, nada que comprove a autenticidade dos retratos por aí estampados. De muitas atribuições e reconhecimentos duvidosos, destacam-se seis quadros de semelhantes homens que compõem a figura de William Shakespeare… a figura imortal que assombrará para sempre as coxias dos teatros:
Grafton Portrait
Pintor desconhecido, 1588
O nome vem do nobre que tinha a posse do retrato quando foi descoberto.
Especula-se que seria o jovem Shakespeare, aos 24, mas estudos contestam o retrato por causa da jaqueta que veste o rapaz, provavelmente cara demais para um jovem da estatura social de Shakespeare. Além disso, o Bardo ainda começava sua carreira, provavelmente passava por muitas dificuldades, viajava muito com as companhias de teatro, era pouco importante e nada reconhecido para se tornar digno de um retrato mais elaborado como este.
De qualquer forma, este seria o mais antigo dos retratos, ilustrou muitos livros e serviu de base para a caracterização do personagem do filme “Shakespeare Apaixonado”.
Grafton Portrait

 Sanders Portrait
John Sanders, em 1603
Na família Sanders por mais de 400 anos, o retrato é considerado um dos mais prováveis de Shakespeare, pintado realmente na época precisa, pelo próprio patriarca John Sanders, vizinho do Bardo em seus dias londrinos. Pela proximidade geográfica, histórica, artística e boêmia dos dois, o retrato ganhou credibilidade e notoriedade. Também tem sua figura contestada pelos que dizem que poderia ser qualquer um e que não há provas que justifiquem “tanto barulho por nada”. Quando a família emigrou para o Canadá séculos depois, o quadro foi junto, atravessando o mar e gerações. Ainda hoje encontra-se por lá, Ottawa, Ontario, em posse dos Sanders.
Sanders Portrait

Chandos Portrait
Sem autoria definida, 1610
O nome deriva da casa de Chandos, cuja nobreza teria em suas paredes o retrato de Shakespeare. Sem autoria definida, a controvérsia paira sobre dois pintores principais: Richard Burbage e John Taylor, contemporâneos. Documentos apontam para o uso desta imagem em algumas gravuras da época de Shakespeare, o que aumenta sua credibilidade. Mesmo que nunca seja provado sem dúvidas, a National Portrait Gallery de Londres considera que este é o mais confiável retrato de Shakespeare. Talvez o único.
Chandos Portrait

Cobbe Portrait
Pintor desconhecido, data desconhecida
Pertencente ao acervo do arcebispo de Dublin, o anglicano Charles Cobbe, o quadro passou às gerações da família como um verdadeiro retrato de Shakespeare, embora sem comprovações. Questionado devido às cópias e telas semelhantes que circularam no meio, como o falso Janssen Portrait, somente em 2006 teve suas linhas estudadas por especialistas da National Portrait Gallery de Londres. Os resultados impressionaram aqueles que acreditavam ter o domínio de todos os retratos de Shakespeare. Definitivamente o retrato Cobbe entrou na restrita lista das possíveis figuras do Bardo.
 
Cobbe Portrait

Quanto às cópias e falsificações, muito antes de se tornar notório, o Cobbe Portrait seria base para um dos mais controversos casos envolvendo os retratos de Shakespeare. Pintado por Cornelis Jassen, em 1610, o Janssen Portrait foi desmascarado nos anos 80 por estudos que comprovaram alterações na imagem. Tido durante muito tempo como um retrato do Bardo, a pintura recebeu posteriores camadas de tinta para se parecer com Shakespeare. Uma pintura verdadeira, de um contemporâneo qualquer, pintada mesmo por Cornelis Jassen, mas maquiada depois para se parecer com um outro retrato de Shakespeare, o Cobbe Portrait.
Jassen Portrait


Soest Portrait
Gilbert Soest, 1660
Pintado mais de 20 anos após a morte de Shakespeare. Usando a imaginação e o estudo de outros retratos desenhados à época, a pintura de Soest elabora uma figura humana do autor. Contestado sobretudo pela distância temporal entre a vida e a morte, o retrato ganhou notoriedade pela semelhança com outros. Alguns documentos mostram que a pintura foi reproduzida ainda no século XVII e que era usada nos teatros que encenavam as peças mais famosas. Um Shakespeare idealizado, imaginado, mas que se misturou às indefinidas imagens daquele Bardo atemporal.
Soest Portrait

Flower Portrait
Pintor desconhecido, século XIX
O nome se deve a Edgar Flower, comerciante que o comprou para a Royal Shakespeare Company em 1895. É um falso Shakespeare, inspirado em outras pinturas e ilustrações, que passou por inúmeras publicações e edições como um legítimo retrato do Bardo. Talvez o falso mais popular entre os retratos de celebridades. Ilustrou impressões de peças, cartazes, jornais e revistas, e até hoje circula entre livros didáticos e outras publicações. Contudo, estudos comprovaram que o quadro foi pintado no século XIX, com o uso de pigmentos que nem mesmo faziam parte do repertório dos pintores na época de Shakespeare. Um Shakespeare falso na era da reprodutibilidade técnica.
Flower Portrait
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