Rosvita de Gandersheim: a primeira dramaturga da história do teatro

por Homero Nunes
por Rodrigo Morais

Ela viveu numa época em que mulheres eram levadas à fogueira por causa de uma simples cabeleira ruiva, a marca supostamente indelével das bruxas. Inserida dentro de uma sociedade de ascetismo extremado, com forte tendência a colocar na conta do sexo feminino todos os males do mundo, ela tinha tudo para ser mais uma entre muitas outras mulheres talentosas esquecidas pelo tempo, às quais não foram dadas as devidas condições para se destacarem em algum campo do conhecimento humano. Ainda assim, tendo contra si uma série de circunstâncias, muitas relacionadas a questões de gênero, ela se tornou a primeira dramaturga da história do teatro. Mais do que isso, tornou-se a responsável pelo restabelecimento da composição teatral no ocidente. Seu nome: Rosvita de Gandersheim.

Nascida por volta de 935 onde hoje se encontra a Alemanha, bem no meio da Idade Média (sic), supostamente a “idade das trevas”, são poucas as informações que se têm a respeito de sua vida. Além da data e local aproximados de nascimento, por meio de algumas cartas suas que sobreviveram ao tempo sabe-se que ela foi uma monja beneditina e que teria entrado para a ordem quando tinha 23 anos. A morte a surpreendeu provavelmente no ano 1000 da graça de Nosso Senhor. Enclausurada em seu convento, Rosvita de Gandersheim escreveu seis peças teatrais, mesmo vivendo sob os auspícios de uma Igreja que ainda lutava para converter os povos germânicos ao catolicismo e que se mostrava inclinada a condenar com veemência o teatro, arte associada a certas práticas pagãs que ela fazia questão de erradicar. Com efeito, desde o século III d. C., quando o império romano se cristianizou, não se tinham notícias de manifestações teatrais na Europa, pelo menos não no âmbito dramatúrgico – o teatro popular, é claro, perseverou, ainda que a contragosto da Santa Sé. A essa extraordinária mulher é devida a modificação em semelhante estado de coisas. Depois de Rosvita, tudo indica que somente a partir de meados do século XVII começariam a aparecer, esporadicamente, outras dramaturgas, como, por exemplo, as inglesas Aphra Behn (1640?-1689) e Susannah Centlivre (1667?-1723).
Albrecht Dürer, “Rostiva presenteia o Imperador Otto, o Grande, com sua Gesta Oddonis“, 1501

Das seis peças legadas pela autora “alemã”, todas escritas em latim, a mais conhecida e estudada é sem dúvida Sabedoria (Sapientia), que conta a lendária história de Santa Sofia e do martírio de suas três filhas, chamadas Fé (Pístis), Esperança (Elpís) e Caridade (Ágape). Denunciadas por Antíoco, subalterno do imperador Adriano, as virgens são submetidas a uma série de provações aberrantes, sempre na intenção de fazê-las abjurar o novo credo oriental que, futuramente, se tornaria hegemônico no império romano. Persistindo na fé cristã, elas acabam decapitadas. Ao contrário do que o enredo leva a crer, trata-se de uma obra cômica, claramente inspirada nas peças de Terêncio, um dos grandes nomes da comédia latina. Mais inusitado, contudo, do que fazer humor valendo-se de uma narrativa hagiográfica é a constatação de que quase todos os achados cômicos de Sabedoria amparam-se na oposição homem x mulher, com a autora se posicionando claramente a favor de seu sexo. Isso faz dela, nas palavras de Luiz Jean Lauand, professor da Faculdade de Educação da USP, uma espécie de “feminista avant la lettre”.


Enquanto Antíoco e Adriano surgem na peça como dois palermas, as virgens e, especialmente, a mãe (Sofia significa sabedoria em grego), delineiam-se de modo que virtudes consideradas caras ao sexo feminino, como a inteligência, sejam ressaltadas. Isso fica muito claro em um momento primordial da obra, no qual Santa Sofia, valendo-se da idade de suas filhas – respectivamente, 12, 10 e 8 anos – dá uma verdadeira aula de matemática ao imperador, que se mostra um total ignorante na matéria. É por essas e outras que Sabedoria poderia ser interpretada como uma peça que ousa em certo sentido ir além do feminismo, chegando, em plena Idade Média, às raias da misandria, isto é, o desprezo pelo ser masculino (o antônimo de misoginia). Se hoje em dia, após a emancipação das mulheres, isso não é lá muito comum, imagine-se naquela época. Por detrás de um discurso alegórico, típico da estética cristã-medieval, que procura personificar a sabedoria divina (Sofia) e as três virtudes teologais (Fé, Esperança e Caridade), projeta-se outro que, mesmo na contemporaneidade, poderia ser considerado um tanto subversivo: a defesa da supremacia intelectual feminina. Salvo engano, nem autoras como Simone de Beauvoir, Betty Friedan ou Kate Millet, a provável “santíssima trindade” do feminismo moderno, chegaram a esse extremo. Sabendo-se que a história do teatro apresenta um conjunto de autores que, apesar do imenso talento, destacou-se também por sua notória misoginia (Eurípides, Strindberg, Nelson Rodrigues e outros), não deixa de ser um alento verificar que existe uma visão diametralmente oposta no tocante à relação de forças entre os sexos, revelando que a voz feminina não se calou nem mesmo nos momentos mais adversos à sua expansão. 


Coluna: TEATRO


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