Roberto Alvim, o novo enfant terrible do teatro brasileiro

por Rodrigo Morais
Nos anos sessenta e setenta do século passado, coube a José Celso Martinez Corrêa ocupar o simbólico posto. Nos anos oitenta e noventa, foi a vez de Gerald Thomas sucedê-lo e honrá-lo. Nos anos que correm, após a (falsa) aposentaria do último, tudo indica que a vaga já foi preenchida, agora pelo dramaturgo e encenador carioca Roberto Alvim, o novo enfant terrible* do teatro brasileiro. Radicado em São Paulo há alguns anos, onde fundou, na efervescente rua Augusta, o Club Noir, bar, teatro e sede de sua companhia, espécie de novo templo da vanguarda teatral paulistana, Roberto Alvim advoga uma dramaturgia e uma encenação igualmente radicais, daquelas que não fazem a mínima concessão a um certo padrão de gosto médio próprio do grande público.
 
 Roberto Alvim (1973 –      )
 
No que concerne à primeira, Roberto Alvim, influenciado seja por autores psicanalíticos, como Freud, Jung e Lacan, seja por filósofos “pós-modernos”, como Foucault e outros, seria o criador do mais recente anátema em se tratando de texto teatral, algo por ele designado de Dramáticas do Transumano. Um anátema, importa ressaltar, dentro do grande paradigma a nortear o teatro autoral de hoje, o chamado pós-dramático, isto é, o teatro cujo texto procura romper com o formato tradicional do drama (conflito, desenvolvimento, clímax…). Num certo sentido, uma espécie de radicalismo do radicalismo. No que concerne à segunda, as marcas de Roberto Alvim seriam, basicamente, as seguintes: atores que atuam praticamente imóveis o tempo todo, abdicando de qualquer gesticulação acentuada; entonação, da parte deles, bastante marcada do texto, o que denota a composição de uma verdadeira partitura vocal, cuja função é colocar em primeiro plano não a enunciação, mas a melopéia do que se diz em cena; e, principalmente, o uso (ou, melhor seria dizer, o não uso) da luz, atributo que o próprio nome da companhia de Alvim já revela. Trata-se, pois, de uma busca, aliás bem característica da cena contemporânea, de aproximar o teatro com as artes plásticas. No caso de Roberto Alvim, a aproximação de seu teatro se dá com alguns artistas plásticos considerados abstracionistas, como Kazimir Malevich e Mark Rothko, ambos bastante admirados pelo diretor.
 
 
Por se posicionar como signatário de um teatro deveras alternativo, undergroundavant-garde, ou quaisquer adjetivos que se possam levantar para qualificá-lo, além de assumir uma postura algo agressiva na defesa de suas idéias, o que já lhe valeu alguns bate-bocas públicos, um deles inclusive com o norte-americano Robert Wilson, encenador mundialmente prestigiado que recentemente esteve no Brasil, Roberto Alvim costuma despertar opiniões extremadas a seu respeito, que se dividem mais ou menos assim: de um lado, um séquito (pequeno mais expressivo) de admiradores fervorosos; de outro, uma legião de detratores, que torcem o nariz só de ouvir falar em seu nome. É curioso notar que Roberto Alvim, confortavelmente assentado, diga-se de passagem, no “trono” que um dia foi de seu conterrâneo Gerald Thomas, herdou dele não apenas a “coroa” e o “cetro” de principal polemista do teatro brasileiro, mas também as piadas que lhe eram dirigidas vinte ou trinta anos atrás, ora adaptadas às idiossincrasias de Alvim (em especial o gosto pela cena escura). Antes, quando alguém era perguntado sobre o que achara do último espetáculo de Gerald Thomas, a resposta, em tom de blague, era: “Não sei, pois a cortina de fumaça não me permitiu assisti-lo”. Agora, quando o imaginário espectador é questionado sobre o último espetáculo de Roberto Alvim, a resposta ficou assim: “Não sei, pois a luz (ou a falta dela) não me permitiu assisti-lo.”
 
 
Cabe ressaltar que Roberto Alvim já assinou, numa carreira relativamente curta, mais de quarenta montagens, com dramaturgia própria ou alheia. Atualmente, seu principal projeto, iniciado recentemente com a encenação de As Suplicantes, é levar ao palco do Club Noir todas as tragédias de Ésquilo – adaptadas, é claro, ao seu estilo sempre inconfundível. Um encontro mais do que interessante entre as concepções pós-dramáticas de Alvim com a poesia pré-dramática de Ésquilo. O leitor que se dispor assistir a um desses espetáculos poderá decidir por conta própria para qual “turma” entrar, se dos apologistas ou dos censores de Roberto Alvim. Aos que optarem por se incorporar ao último grupo, fica a piada como forma de epigrama.

 

*Segundo a Wikipedia, com o perdão da pobre referência, “Enfant terrible (“criança terrível”) é um termo francês para designar uma criança que é muito inocente ao ponto de dizer coisas embaraçosas aos adultos, em especial aos pais. O Webster’s Dictionary também define um enfant terrible como uma pessoa que geralmente tem sucesso e que é fortemente não ortodoxo, inovador ou de vanguarda”.


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