Os 450 anos da imortalidade de William Shakespeare

por Homero Nunes

“Ninguém faz nada em arte se lhe falta uma dimensão de mau gosto de Vicente Celestino. Todos nós somos um pouco o autor de ‘O Ébrio’. Shakespeare viveu grandes momentos de Vicente Celestino. Ricardo III tem coisas de ‘Coração Materno’ e ‘Ontem eu rasquei o teu retrato’.”

Nelson Rodrigues

William Shakespeare, ele mesmo, o bardo, o gênio atemporal, o poeta e dramaturgo considerado o primus inter pares (primeiro entre seus iguais) da literatura universal. Aquele aclamado em prosa e verso como o maior escritor de todos os tempos. Aquele a quem Victor Hugo reputava o maior criador depois de Deus. Aquele a quem Harold Bloom, crítico literário norte-americano ainda em atividade, considera não só o centro do cânone ocidental, mas o próprio inventor da ideia que hoje fazemos a respeito do ser humano. Em suma, o mais indispensável e incontornável dos autores, aquele a partir do qual todos os outros deveriam ser julgados – mesmo os que vieram antes dele. Contudo, ainda que tido e havido como o suprassumo da sofisticação artística, o protótipo daquilo que poderíamos qualificar como “cultura erudita”, a obra de Shakespeare foi praticamente toda construída sob bases advindas da chamada cultura popular. Seu teatro, por mais que hoje se nos afigure como “acadêmico” e “clássico”, nasceu de um sujeito que não teve uma educação esmerada, não era nobre e não escrevia para a nobreza, pelo menos não especificamente. Se existe um traço marcante do teatro elisabetano, e também do “Século de Ouro” espanhol, é seu caráter popular, seja na absorção de elementos peculiares às camadas mais baixas da população, economicamente falando, seja na escrita voltada para a diversão dessas mesmas camadas.

Cordelia na Corte do Rei Lear, por John Gilbert, 1873 - Towneley Hall, Burnley, UK

Cordelia na Corte do Rei Lear, por John Gilbert, 1873 – Towneley Hall, Burnley, UK

Exemplos dessa assimilação empreendida por Shakespeare do folclore de sua terra natal pululam em grande parte das 39 peças que deixou. Alguns, gritantes, podem ser encontrados em obras insuspeitadas, como O Rei Lear e Romeu e Julieta. Na primeira, por intermédio da personagem de Edgar, podemos antever a figura folk de Tom o’Bedlam, um tipo marginal e lunático muito comum no imaginário da Inglaterra medieval. Na segunda, por intermédio da personagem da ama, configurada à maneira de uma Mother Bunch, figura típica da literatura popular inglesa, as chamadas “histórias agradáveis”. Essas histórias, impressas em livrinhos que nos tempos de Shakespeare eram vendidos em feiras, faziam a delícia das jovens casadoiras, que no tipo excêntrico de Mother Bunch descobriam conselhos e lições sexuais. Isso sem falar de peças como Sonhos de uma Noite de Verão e A Tempestade, nas quais as mais caras tradições pagãs de origem normanda e saxônica extravasam quaisquer limites. E o que dizer de Otelo, tragédia cujas conexões com a commedia dell’arte já foram apontadas por críticos e comentadores da dramaturgia shakespeariana. De que modo poderíamos definir, em poucas palavras, o demoníaco Iago, senão como uma espécie de Arlequim do mal?

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Otelo e Desdêmona, por Muñoz Degrain, 1881 – Museu do Chiado, Lisboa

Em que pese a obra de Shakespeare ter sido, ao longo dos anos, cooptada pelas classes mais favorecidas, servindo como emblema de distinção intelectual e social, a mesma visão classista que hoje a venera, um dia já se voltou contra ela. Não exatamente contra a obra, vale esclarecer, mas contra seu autor. Estamos nos referindo, é claro, às suspeitas, levantadas desde o século XIX, quanto à autoria das peças e dos poemas shakespearianos. Tudo começou quando, em 1856, uma norte-americana chamada Delia Bacon, que se dizia descendente do filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626), atribuiu a ele a composição desses textos. A partir de então, já apareceram mais de cinquenta candidatos ao título de poeta maior do teatro ocidental. A alegação em favor de cada um deles é quase sempre a mesma: Shakespeare teria sido apenas um factótum, isto é, alguém que emprestava seu nome a outrem que não desejava aparecer, provavelmente por motivos políticos. Por detrás dessas desconfianças, que nenhum estudioso de mérito jamais levou a sério, esconde-se um indefectível preconceito de classe, que poderia ser resumido por meio da seguinte pergunta: como um sujeito que jamais frequentou uma universidade, um simples “homem de teatro” que, ainda por cima, era plebeu da cabeça aos pés, teria conseguido produzir obras de tamanha envergadura?

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Deixando de lado tais polêmicas, que na realidade só serviram para jogar mais luz sobre a genialidade do bardo inglês, importa ao leitor do Isso Compensa saber que, em virtude dos 450 anos do nascimento de William Shakespeare (2014), desde o ano passado está em curso um dos mais ousados empreendimentos do teatro brasileiro contemporâneo, intitulado “SHAKESPEARE – Projeto 39”. Promovido pelos produtores Erike Busoni e Alexandre Brazil, como o próprio nome revela, seu intento é levar para os palcos da cidade de São Paulo, ao longo de alguns anos, todas as obras teatrais do autor. A peça escolhida para inaugurá-lo, Ricardo III, já está em cartaz e pode ser vista, de sexta a domingo, no Centro Cultural São Paulo (CCSP). Com direção de Marcelo Lazzaratto, um dos destaques dessa montagem é, sem dúvida, a ótima atuação de Chico Carvalho no papel principal. A excelência de seu trabalho nos permite afirmar que, para uma completa fruição, ler as peças de Shakespeare não basta: é imprescindível vê-las encenadas. Mais uma prova de que talento, venha de onde vier, não se explica: admira-se. Quatro séculos e meio após seu nascimento, a simples existência de um projeto dessa magnitude, encampado em um país americano e que, ainda por cima, não fala inglês, só serve para corroborar a sapiência de outro grande dramaturgo elisabetano (Ben Johnson), responsável pela publicação da primeira coletânea das peças de Shakespeare (1623), cujo texto introdutório terminava exatamente assim: “Ele não pertencia ao seu tempo, mas a todos os tempos.”

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Hamlet e Horácio no Cemitério, Eugène Delacroix, 1839 – Louvre, Paris

William Shakespeare

*Stratford-upon-Avon, 23 de abril de 1564
+Stratford-upon-Avon, 23 de abril de 1616

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