O Balcão: a capela Sistina do teatro

por Homero Nunes
por Rodrigo Morais


Um dos momentos mais marcantes da história do teatro brasileiro: a montagem de O Balcão, de Jean Genet, feita pelo encenador franco-argentino Victor Garcia, estreada a 29 de dezembro de 1969. Produzida pela atriz Ruth Escobar, para que essa montagem fosse realizada foi necessário praticamente destruir o palco de seu teatro, no intuito de abolir a separação (convencional) entre atores e espectadores. Para tal, o palco foi escavado e, do porão até os urdimentos, foi erguido um cilindro em cujos passadiços o público se acomodava, permitindo a ele acompanhar a ação no bordel de luxo como um voyeur. O cenário foi concebido por Wladimir Pereira Cardoso.
Conforme relata o crítico teatral Sábato Magaldi, em seu livro Depois do Espetáculo, “iluminava-se o ambiente por meio de um espelho parabólico, escavado no concreto do porão, cinco metros abaixo do palco. Desenhou-se uma concha elipsoidal com plástico espelhado, desempenhando funções semelhantes à de um farol de automóvel. Um módulo subia e descia: era de ferro vazado, com acrílico. Passavam-se aí muitas cenas, mas atores distribuíam-se por todo o teatro, inclusive nos passadiços para o público. Do urdimento, descia uma rampa, em espiral, com nove metros de altura, sendo utilizada em alguns quadros (do espelho parabólico aos urdimentos havia 20 metros de altura). Além disso, foram instalados cinco elevadores individuais e dois guindastes suspendiam duas gaiolas, para o diálogo de Irma e Carmen. Os atores também usavam plataformas, verdadeiros trampolins. Uma cama ginecológica entrava no módulo sem necessidade de que ninguém a empurrasse. Uma parte da estrutura metálica (86 toneladas de ferro), de seccionamento treliçado, abria-se para a entrada dos revolucionários”.
Para Magaldi, O Balcão talvez tenha sido o espetáculo mais importante na carreira de Victor Garcia. Contando com um elenco enorme, repleto de grandes talentos, como, por exemplo, Célia Helena, Jofre Soares, Lilian Lemmertz, Ney Latorraca, Paulo César Pereio, Raul Cortez e Teresa Rachel, além de muitos outros nomes de peso, apenas a plateia de São Paulo teve acesso a essa obra, uma vez que o seu translado era inviável, comercial e logisticamente. De qualquer forma, foi feito um filme dessa memorável encenação, do qual aqui se vê uma pequena parte. Ao assisti-lo na íntegra, quando exibido no exterior, um professor iraniano teria exclamado: “a Capela Sistina do Teatro”.


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Coluna: Teatro



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