Nelson Rodrigues, o Shakespeare dos medíocres

por Rodrigo Morais
“Ninguém faz nada em arte se lhe falta uma dimensão de mau gosto de Vicente Celestino. Todos nós somos um pouco o autor de ‘O Ébrio’. Shakespeare viveu grande momentos de Vicente Celestino. Ricardo III tem coisas de ‘Coração Materno’ e ‘Ontem eu rasquei o teu retrato’.”
Nelson Rodrigues

Não é nada fácil, hoje em dia, escrever sobre Nelson Rodrigues. Se, no passado, como é de conhecimento geral, o dramaturgo e jornalista pernambucano foi considerado um autor maldito, renegado, atualmente ele é o extremo oposto disso: ninguém, mas ninguém mesmo, se lhe iguala em prestígio nos quadros da crítica teatral e/ou literária brasileiras deste início de século. Tamanho sucesso, não só de crítica como também de público, que alçou Nelson Rodrigues nos últimos anos à condição de verdadeira legenda da cultura nacional, não poderia passar incólume, em especial aos que se dispõem no presente a dissertar sobre sua personalidade singular e sua obra idem. Explicando: à medida que seu nome foi se consolidando como uma unanimidade, a mesma unanimidade que ele certa vez condenou numa de suas famosas máximas, foi se reduzindo gradualmente a “margem de manobra” de seus exegetas, cada vez mais premidos pela possibilidade de incorrerem no sempre condenável clichê, como bem demonstra esta frase a se encerrar, que não conseguiu fugir a um deles. Depois de a obra rodrigueana ter sido virada e revirada do avesso por uma infinidade de estudos acadêmicos de diferentes matizes, além de popularizada por meio de algumas adaptações para televisão e cinema, a poderosa e impagável figura do autor de Vestido de Noiva, finalmente, passou a ser não só aceita como até idolatrada pelos mesmos padrões de gosto médio que um dia tanto o fustigaram, em termos morais e estéticos. De tarado e pervertido à gênio artístico, num intervalo de poucos anos. O resultado não poderia ser outro: Nelson Rodrigues virou senso comum, no melhor e no pior sentido da expressão.

 
 
Ao invés de tentar escapar ao lugar-comum, como seria, talvez, o ideal, num texto que se pretende inédito e atraente, farei aqui o contrário, isto é, mergulharei de cabeça nele, sem nenhum pudor, bem ao estilo de certo escritor, vocês devem imaginar quem, e bem ao gosto de certo ditado, vocês devem imaginar qual (se não se pode vencê-lo…). Mais um clichê, aliás. Com efeito, não custa dar prosseguimento a este post deveras estereotipado com uma comparação que é chavão puro em se tratando de crítica teatral. Ela começaria assim: Se William Shakespeare foi o Shakespeare da aristocracia, Henrik Ibsen teria sido o Shakespeare da burguesia, ao passo que Bertolt Brecht, o Shakespeare do proletariado. E Nelson Rodrigues, como se encaixaria nessa cadeia? Segundo um estudioso francês chamado Michel Debrun, Nelson Rodrigues seria o “Shakespeare dos medíocres” (não confundir, por favor, com um medíocre Shakespeare). Mesmo se valendo de um recurso desgastado, que se utiliza do nome do bardo inglês como substantivo adjetivado para realçar a grandeza do dramaturgo brasileiro, é difícil negar que, como síntese de seu teatro, o francês foi preciso como um relógio suíço. Ninguém, mas ninguém mesmo, foi tão feliz como Nelson Rodrigues na composição de personagens prosaicas, simplórias, mesquinhas, medianas ou quaisquer outros adjetivos similares. A galeria dessas personagens, todas plenas de vida, é enorme, não cabendo citá-las na íntegra neste espaço; contudo, algumas delas merecem ser lembradas impreterivelmente, como amostra de um universo muito singular. Exemplos que me vêm à mente de imediato são o “seu” Noronha, de Os Sete Gatinhos, o pai de família que, ao entrar para uma seita religiosa qualquer, fervorosamente cristã, não permitia a compra de papel higiênico para sua casa, por considerar esse artigo de uso íntimo um pecado da carne! Como ele e sua família se serviam para limpar as partes pudendas? De jornais velhos. Outro exemplo fácil de lembrar é Zulmira, de A Falecida, para quem a vida ordinária que levava só teria remissão com um enterro de luxo, o sonho escapista de sua vida, isso sem contar o orgulho que sentia em morrer com os seios intactos, enquanto sua odiada vizinha Glorinha, que extirpara um seio por conta de um câncer, não teria o mesmo privilégio: “Eu sou a morta que pode ser despida… Vizinhas, me dispam…”.
 
 Nelson Rodrigues 23/08/1912 – 21/12/1980
Embora Nelson Rodrigues tenha deixado uma obra dramatúrgica riquíssima, a filosofia, ou, melhor seria dizer, a teologia em que ela estaria assentada, não é nada complexa, antes pelo contrário. Quase todo o seu teatro, se não toda sua obra, giram em torno da seguinte concepção de mundo: o ser humano é puro lodo, pura culpa, sem a presença da qual “estaríamos de quatro, urrando no bosque”, nas palavras do próprio autor. A redenção só se dá perante a renúncia ao prazer sexual, renúncia esta sempre retratada de maneira castradora e, por conseguinte, mórbida. Suas personagens estão quase sempre no limite entre o escuso e o sublime, a perdição e a salvação. E tudo isso costuma se “presentificar” diante do leitor-expectador recheado de um elemento fundamental, encontrável em quase todas as dezessete peças legadas pelo escritor: a vulgaridade, o mal gosto exacerbado. Difícil ler ou ver um drama de Nelson Rodrigues que não contenha um festival de banhas, papadas, eczemas, suor gotejante, furúnculos e o que mais o valha. Não bastasse, ainda por cima, o uso e abuso de elementos chulos, que beiram o escatológico, Nelson Rodrigues também é pródigo na apropriação de recursos típicos do melodrama e da farsa, ambos normalmente tidos como os dois gêneros mais baixos na hierarquia teatral. Os leitores devem estar se perguntando: como uma obra que se ampara numa filosofia tão primária, e se farta no grotesco e no humor negro, pode ser qualificada de “riquíssima”?  Em uma palavra: talento. A maneira como Nelson Rodrigues absorve e elabora isso esteticamente, estilizando o que os homens têm de pior, sua maestria dramática para lidar com todas essas coisas que costumam gerar aversão, do parricídio ao incesto, fazem dele, sem nenhum favor patriótico ou patrioteiro, um dos maiores dramaturgos do século XX, a ombrear-se ao lado de gigantes como Eugene O’Neill, Samuel Beckett, Luigi Pirandello, Garcia Lorca, Harold Pinter, Eugène Ionesco, Bernard Shaw e o já citado Brecht. Nada mal para quem um dia intitulou seu próprio teatro de “desagradável” e foi execrado pela direita (pelo aspecto moral de suas peças) e pela esquerda (por seu pensamento político radicalmente anticomunista).
 
“Nelson Rodrigues foi simplesmente o único gênio que o teatro brasileiro já produziu.”
Antunes Filho
 
Infelizmente, Nelson Rodrigues não viveu para gozar o seu sucesso: sua “redenção”, ou “ressurreição”, só veio um ano após sua morte, quando, em 1981, Antunes Filho, sintetizando quatro peças do autor, criou o seu histórico espetáculo Nelson Rodrigues, O Eterno Retorno. Pronto, havia sido dada a largada para sua mitificação, que só fez crescer desde então. Nas palavras de um dos mais qualificado críticos da obra rodrigueana, Sábato Magaldi, de repente “descobriu-se que Nelson Rodrigues era um clássico, e os clássicos se prestam às mais controvertidas exegeses, pela riqueza inesgotável de sua obra”. A partir daí, dez em cada dez encenadores brasileiros queriam dar a sua versão de Nelson, gerando quase que uma overdose nos espectadores de teatro que vivenciaram esse período “heróico”. Depois vieram Nelson 2 Rodrigues (1984) e Paraíso Zona Norte (1990), do mesmo Antunes Filho, e muitas outras montagens importantes de diversos diretores, além da extraordinária biografia escrita por Ruy Castro, O Anjo Pornográfico, fundamental para os que se interessam por teatro em geral e Nelson Rodrigues em particular. Graças à pesquisa realizada pelo jornalista mineiro, muitos detalhes escabrosos de sua vida, dignos de sua obra, vieram a público, como as mortes trágicas de seu pai, de três de seus irmãos e da filha deficiente mental que teve num relacionamento extraconjugal. É leitura obrigatória. Com o lançamento, na forma de livro, de suas crônicas e contos, verificou-se que o autor era ainda maior do que se pensava, na medida em que, nesses gêneros, ele não fica a dever a um Rubem Braga ou um Dalton Trevisan. Por si só, mereceriam uma análise à parte. Para finalizar, vale a pena deixar aqui registradas algumas dicas para quem ainda não teve o imenso prazer de adentrar nesse universo todo feito de crimes e castigos, pulsões e remorsos. Além das peças e da biografia acima mencionada, vale a pena, como leitura auxiliar, O Teatro da Obsessão, estudo crítico de Sábato Magaldi, a quem se deve o mérito da divisão usualmente conferida à dramaturgia de Nelson Rodrigues (Tragédias Cariocas, Peças Míticas e Peças Psicológicas). Das adaptações para cinema, quatro, parece-me, estão mais ou menos à altura dos textos que lhes deram ensejo: Boca de Ouro (1962), de Nelson Pereira dos Santos; A Falecida (1965), de Leon Hirszman;Toda Nudez Será Castigada (1973), de Arnaldo Jabor; e O Beijo no Asfalto (1984), de Bruno Barreto. Mas a melhor mesmo, por incrível que pareça, foi produzida pela televisão: a “série” global A Vida Como Ela é, feita a partir da coletânea de contos homônima, que teve direção de Daniel Filho. Os neófitos que se dispuserem a encarar todo esse material não irão, com certeza, se arrepender, verificando empiricamente que essa verdadeira apoteose por ocasião do centenário de nascimento do dramaturgo é mais do que justificável. Quando forem contaminados pelo vírus propositalmente inoculado por Nelson Rodrigues, como este estudioso de teatro que vos fala e muitos outros “tiétes” do escritor já o foram, reconhecerão que sua obra possui aquela qualidade inequívoca a distinguir os grandes “monumentos” literários: ser perene ao tempo.
Rodrigo Morais


 
Sobre o Nelson compensa:
TEATRO
de Antunes Filho:
Nelson Rodrigues, O Eterno Retorno (1981)
Nelson 2 Rodrigues (1984)
Paraíso Zona Norte (1990)
 
BIOGRAFIA
de Ruy Castro:
O Anjo Pornográfico (1992)
 
ESTUDO CRÍTICO
de Sábato Magaldi:
O Teatro da Obsessão (2004)
 
CINEMA
Boca de Ouro (1962), de Nelson Pereira dos Santos
A Falecida (1965), de Leon Hirszman
Toda Nudez Será Castigada (1973), de Arnaldo Jabor
O Beijo no Asfalto (1984), de Bruno Barreto
 
TELEVISÃO
de Daniel Filho:
A Vida Como Ela é (1996)
disponível em DVD
 
“Nelson sabe mais do que é sexualmente inconsciente e irresistível do que Schnitzler, é capaz de dramatizar uma monomania com a intensidade de um Strindberg e de criar um mundo tão pessoal e diferente do resto como o de Wedekind. Escrevesse numa língua mais divulgada e teria morrido rico e famoso e faria parte dos repertórios das grandes companhias.”
Paulo Francis

 

O TEATRO DE NELSON RODRIGUES
PEÇAS PSICOLÓGICAS
A mulher sem pecado
Vestido de noiva
Valsa nº 6
Viúva, porém honesta
Anti-Nélson Rodrigues
 
PEÇAS MÍTICAS
Álbum de família
Anjo negro
Senhora dos Afogados
Doroteia
 
TRAGÉDIAS CARIOCAS I
A falecida
Perdoa-me por me traíres
Os Sete Gatinhos
Boca de ouro
 
TRAGÉDIAS CARIOCAS II
O beijo no asfalto
Bonitinha, mas ordinária ou Otto Lara Rezende
Toda Nudez Será Castigada
A serpente
 
E mais romances, contos, crônicas e frases incríveis.
 
ISSO COMPENSA:

uma seleção de frases do Nelson e mais algumas indicações que compensam


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