Jorge Andrade: o Garrincha da Dramaturgia Brasileira

por Homero Nunes

Por Rodrigo Morais

Vereda da Salvação
A essa altura do campeonato todo mundo já sabe: em 2012, Nelson Rodrigues (1912-1980), o maior dramaturgo brasileiro, se vivo estivesse, completaria cem anos. O que poucos sabem é que neste ano, além do centenário de Nelson, há uma outra efeméride importantíssima para o teatro brasileiro: os noventa anos de nascimento de outro dramaturgo extraordinário, o paulista Jorge Andrade (1922-1984). Para que o leitor desavisado tenha uma ideia da relevância de sua obra teatral, basta a seguinte comparação: se, com justiça, Nelson Rodrigues é considerado o Pelé de nossa literatura dramática, Jorge Andrade, injustamente bem menos badalado, seria o Garrincha. Autor de peças fundamentais, como A Escada, Ossos do Barão (seu maior sucesso, que virou inclusive novela), A Moratória e Vereda da Salvação (sua obra-prima, duas vezes montada por Antunes Filho e que virou filme nas mãos de Anselmo Duarte), Jorge Andrade, diferentemente de Nelson Rodrigues, não se debruçou sobre temas como as pulsões e obsessões da classe média brasileira. Sua temática era, sem dúvida, diversa. Os dramas do autor pernambucano, grosso modo, destacavam-se, entre outras coisas, pela acentuada profundidade psicológica de suas personagens, quase sempre portadoras de dilemas metafísicos atemporais. Já os dramas do autor paulista, tipicamente épicos – no sentido de históricos, e não no sentido brechtiano – sustentavam-se em conflitos, digamos assim, menos etéreos e mais comezinhos, retirados geralmente de uma realidade mais concreta (sic), se possível inspirada em algum fato do passado nacional.
A Moratória
Para finalizar este breve comentário, poderíamos apontar, como exemplo modelar de sua dramaturgia, e como uma boa dica de leitura, a peça A Moratória, de 1954. Ambientada numa fazenda do interior paulista, na época do crack da bolsa de Nova York (1929), como o próprio título de uma certa forma já revela, sua trama centra-se numa família de cafeicultores arruinada pela estrondosa crise econômica advinda desse evento. Contudo, para além do realismo histórico, algo quase irrelevante em se tratando de arte, Jorge Andrade compôs na verdade um grande estudo sobre a decadência da “aristocracia” paulista e seus valores, alcançando, desse modo, um patamar estético que não se distancia da conhecidíssima excelência rodrigueana. Em suma: caso não tenham acesso a nenhuma montagem programada para este ano de uma de suas peças, por favor, não se façam de rogados e leiam-nas, nem que seja para desmentir o autor dessas bem traçadas linhas. A conferir.

  Jorge Andrade (1922 – 1984)


“Nesta mistura de presenças concretas, até onde vai a realidade e começa a fantasia? E a realidade e a fantasia estão onde: no passado ou no presente? (…) Até onde um passado avança transfigurando-se em futuro ou este recua transformando-se em passado? Passado, presente e futuro não serão uma só realidade?”



Compensa:
A Moratória, 1954
A Escada, 1961
Ossos do Barão, 1963
Vereda da Salvação, 1964


E a autobiografia Labirinto:
ANDRADE, Jorge. Labirinto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.



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