Eurípides, o mais moderno dos tragediógrafos

por Rodrigo Morais

Série Os Grandes Poetas Trágicos

Enquanto personalidade literária, podemos considerar Eurípides, o mais jovem dos três grandes poetas trágicos, como o maior deles, lançando mão aqui de uma expressão obviamente anacrônica. Isso se deve, em especial, ao fato de ele ter sido, dentre todos, aquele que teve a vida, digamos assim, mais atribulada, pelo menos de acordo com o que se sabe a respeito dela. Eurípides nasceu em Salamina, no ano de 480 a.C., segundo a tradição no mesmo dia em que os gregos venceram os persas na batalha derradeira das Guerras Médicas, travada nas proximidades daquela ilha, localizada no mar Egeu. Educou-se em Atenas, onde viveu a maior parte de sua vida. Ao contrário de Ésquilo e Sófocles, ambos originários de famílias ricas e aristocráticas, Eurípides era filho de um modestíssimo verdureiro. Também diferentemente de seus antecessores, Eurípides não foi um grande ganhador de concursos trágicos: dos muitos de que participou, obteve apenas quatro vitórias, sendo a última delas, ainda por cima, póstuma. A maioria dos estudiosos atribuem a Eurípides a composição de no mínimo 74 peças, das quais 67 seriam tragédias e as outras sete, dramas satíricos. Certas fontes, todavia, afirmam que Eurípides teria escrito 92 peças.
 
 Εὐριπίδης, 480 – 406 a.C.
 
Pobre e vivendo, como tragediógrafo, incomodamente à sombra de Sófocles, o maior ganhador da história dos concursos, o destino ainda reservaria a Eurípides, na fase final de sua existência, mais dois outros sofridos desgostos: tornar-se um dos alvos preferenciais das comédias de Aristófanes, autor que tinha um talento aguçado para ridicularizar seus desafetos, em cuja lista Eurípides teve o azar de se ver incluído; ter sido condenado ao ostracismo, isto é, à expulsão da cidade de Atenas, pelo crime de, acreditem se quiser, pederastia, o que nos mostra que os gregos não eram assim tão tolerantes com o homossexualismo masculino quanto se costuma crer. Até mesmo uma sociedade pagã e “liberal” como a ateniense do período clássico impunha certos limites a tal comportamento sexual. Por essas e outras, Eurípides terminou seus dias exilado em Pela, na Macedônia. De todo modo, se Eurípides, por acaso, não foi feliz em vida, a posteridade veio para lhe fazer justiça, posto que, em primeiro lugar, das obras deixadas pelos três grandes poetas trágicos, a dele foi a que mais se conservou: chegaram até os nossos dias 19 de suas peças, das quais O Ciclope é o único drama satírico. Das 18 tragédias remanescentes, algumas estão entre as maiores obras-primas do período em que foram produzidas, como Medeia (431 a.C.), As Troianas (415) e Ifigênia em Áulis (405). Em segundo lugar porque, se observadas em retrospecto, as tragédias de Eurípides, comparadas às de seus ilustres colegas, são aquelas que se mostraram mais afinadas com o gosto e a sensibilidade contemporâneas.
 
 Jason & Medea, J. W. Waterhouse, 1907
 
Tal afinidade é devida, em suma, ao fato de a tragédia euripidiana destacar-se como a mais contestatória em relação aos mitos e aos heróis ancestrais, a mais subversiva, diríamos hoje, no tocante à cosmogonia vigente, precisamente aquela que motivou o aparecimento e a permanência do teatro grego, surgido a partir dos cultos dedicados ao deus Dionísio. Num mundo cada vez mais ausente de transcendência como o nosso, é difícil não se identificar, nesse sentido, mais com Eurípides do que com Sófocles ou Ésquilo. Ademais, como já foi abordado nos textos anteriores da série, ao distanciar-se da religiosidade característica dos primórdios da tragédia – que costumava atribuir maior peso no destino dos heróis trágicos à terrível hibris, isto é, à desmedida que rompe com a ordem estabelecida pelos deuses, ou simplesmente devido a uma fatalidade incoercível (fatum) que deveria reduzi-los a nada – Eurípides insuflou-lhes aquilo que hoje chamamos de vontade, palavra inexistente no vocabulário grego da época. Dotando suas personagens de um maior número de caracteres, qualidade que se tornou então determinante na conformação de suas fortunas ou infortúnios, consciente ou inconscientemente Eurípides contribuiu para “psicologizá-las” num nível de profundidade não atingido pelos antecessores. Mais um liame a aproximar esse autor do homem contemporâneo, que vive num mundo quase que obsessivamente psicologizado. Semelhante atributo da tragédia euripidiana não passaria despercebido por Aristóteles, para quem o autor da ora retratava as pessoas “como eram”, e não “como deveriam ser”. Talvez seja por isso que, embora admirando com afinco o idealismo de Sófocles, o famoso filósofo afirmou, sem nenhum pejo, ter sido Eurípides “o mais trágico dos poetas” (XIII-72).
 
 Electra, filme de Michael Cacoyannis, 1962
 
Enquanto Sófocles deixou-se influenciar pelo pensamento socrático, Eurípides, quase uma antítese de seu rival mais próximo, filosoficamente falando, escorou-se nos chamados sofistas, aqueles para os quais “o homem é a medida de todas as coisas”, segundo a conhecida definição de Protágoras. Exemplos de diálogos sofismáticos pululam na obra euripidiana. O mais sintomático deles seria aquele travado entre Helena e Hécuba, em As Troianas, no qual ambas esmeram-se na defesa de um determinado ponto de vista sobre a recém terminada guerra, no caso o grego (Helena) e o troiano (Hécuba). Nenhum advogado moderno faria melhor. Isso nos remete a outro traço marcante da arte de Eurípides, se atentarmos ao sexo das protagonistas de suas maiores tragédias: sua mal disfarçada misoginia (o desprezo pelo ser feminino). A esse respeito, novamente os exemplos são abundantes. Fiquemos com um bastante ilustrativo, colhido em Medeia. Vejam o que Eurípides colocou na boca da crudelíssima bruxa vinda da Cólquida, logo após esta ouvir o ultimato de Creonte para que deixasse a cidade de Corinto, onde vivia como exilada. Exortando toda a sua amargura e seu desejo de vingar-se de Jasão, ela arrematou assim seu longo solilóquio: “Nasceste mulher. E nós, mulheres, que a natureza fez incapazes para as virtudes, devemos demonstrar que somos insuperáveis nas perversidades.”
 
Maria Callas, na Medea, de Pasolini
 
Misoginia à parte, algo que não combina muito com os tempos do politicamente correto, a mencionada modernidade de Eurípides, que se revela tanto no conteúdo quanto na forma de suas tragédias, quase sempre divergente do modelo que Aristóteles procurou normatizar na Poética, garantiu-lhe o título de ser, supostamente, o mais montado dos tragediógrafos. Não muito tempo atrás, uma encenação que chamou consideravelmente atenção para si foi a de As Bacantes, levada a cabo pelo Teatro Oficina Uzina Uzona e dirigida por José Celso Martinez Corrêa. Na cena capital da peça, quando Penteu, por refutar peremptoriamente o culto a Dionísio em Tebas, é atacado e desmembrado pelas bacantes, José Celso, para representá-la, fez com que as atrizes de sua companhia avançassem no primeiro espectador que vissem pela frente e… arrancassem, à força, toda sua roupa, deixando o indivíduo peladão no meio da passarela do Teatro Oficina. Um dos muitos espectadores que se viram em tal situação foi ninguém mais ninguém menos que Caetano Veloso! Mais do que o apreço de encenadores de diferentes matizes, a modernidade de Eurípides angariou também a estima de alguns cineastas prestigiados, fazendo com que sua obra se tornasse, disparada, a mais adaptada para o cinema dentre todos os tragediógrafos. Cinco adaptações, todas ótimas, merecem menção: Medeia (1969), de Pier Paolo Pasolini, cujo papel principal ficou a cargo de Maria Callas, a famosa diva do canto lírico;Medeia (1988), de Lars Von Trier, filme produzido para a televisão dinamarquesa; Electra (1962), As Troianas (1965) e Iphigênia (1977), todos de Michael Cacoyannis, sendo o primeiro e o último estrelados pela grande atriz grega Irene Papas. Pelo visto, se a vida não foi muito acolhedora com Eurípides, sua passagem para o hades, o reino dos mortos na mitologia grega, ao contrário do que vaticinou Aristófanes em As Rãs, veio redimi-lo por completo, conferindo-lhe a partir de então uma posição que, em muito aspectos, superou as alcançadas por Ésquilo e Sófocles.
Rodrigo Morais
Série os grandes poetas trágicos:
 
Coluna: Teatro
 
 

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