Ésquilo, o pai da tragédia

por Rodrigo Morais

Série Os Grandes Poetas Trágicos

 
 
Universalmente conhecido pelo epíteto de “o pai da tragédia”, Ésquilo não foi o primeiro tragediógrafo da história do teatro. Embora o sempre temerário senso comum nos induza a acreditar no pioneirismo absoluto de sua obra dramática, cuja continuidade teria sido automaticamente efetivada por Sófocles e Eurípides, seus epígonos por excelência, é importante salientar que, antes de Ésquilo, existiram outros tragediógrafos, como, por exemplo, Frínico, Pratinas e Coérilo. Se hoje o nome desses predecessores obliterou-se quase por completo, isso se deu porque as muitas peças que escreveram não se conservaram, ou seja, não chegaram até nós. Com efeito, se não podemos atribuir a Ésquilo a primazia no gênero dramático – como normalmente costumamos atribuir a Homero e Safo a primazia nos gêneros épico e lírico, respectivamente – podemos apontá-lo como o primeiro dos três grandes tragediógrafos cuja obra não pereceu, no sentido material do termo.
 
 Ésquilo 525 a.C. — 456 a.C.
 
Ésquilo nasceu em Elêusis, pequena cidade próxima a Atenas, no ano de 525 a.C.. Dois anos antes, em 527, morrera Psístrato, o mais famoso dos tiranos atenienses – período, portanto, pré-democrático – responsável por colocar o santuário de Deméter (em Elêusis) sob tutela daquela cidade-estado e, além disso, por instituir, por volta de 534, o primeiro concurso de tragédias, nas Grandes Dionisíacas. Posteriormente, quando os persas tentaram, em vão, submeter os gregos a seu domínio, Ésquilo tornou-se combatente, atuando nas duas batalhas que mais marcariam as chamadas Guerras Médicas, a de Maratona e a de Salamina, precisamente a que iniciou e a que encerrou o conflito. Ao morrer, com sessenta e nove anos, em 456 a.C., Ésquilo deixou cerca de noventa peças, das quais quatorze ganharam o primeiro lugar nos concursos que as encetaram. Infelizmente, dessa enorme produção, apenas sete tragédias sobreviveram intactas ao tempo: As Suplicantes (data incenta, entre 499 e 472 a.C.); Os Persas (472 a.C.); Os Sete contra Tebas (467 a.C.); Prometeu Acorrentado (data incerta, provavelmente próxima ao ano de estreia de Oréstia); Agamêmnon, As Coéforas, As Eumênides (que compõem a trilogia conhecida como Oréstia ou Oresteia, representadas pela primeira vez em 458 a.C.).
 
Theodoor Rombouts, Prometheus, 1625
Pelo fato de Ésquilo estar mais próximo no tempo das origens ritualísticas da tragédia, coube a ele, segundo informou Aristóteles em sua Poética, a precedência de “aumentar de um para dois o número de atores, diminuindo o papel do coro e dando maior importância ao diálogo” (IV-20). Partindo do pressuposto de que Aristóteles estaria certo quanto à informação sobre Ésquilo – sua Poética, é bom lembrar, foi escrita mais de um século após a época das grandes tragédias – e do conhecimento que temos das obras deixadas por Sófocles e Eurípides, podemos afirmar, com certa segurança, que do primeiro ao último o papel do coro nas tragédias foi perdendo força. À medida que as gerações de poetas trágicos se sucediam no tempo, é o que podemos intuir a partir daquilo que ficou dos três que conhecemos, a tragédia ateniense foi se tornando cada vez menos lírica e mais “dramática”, no sentido de ir, aos poucos, relegando o coro a segundos ou terceiros planos. Partindo do pressuposto de que o herói trágico, segundo o teórico francês Jean Pierre Vernant, “se constitui na distância que separa daímon de ethos”, percebemos que, ao longo do tempo, o peso da balança foi se deslocando do primeiro para o segundo, isto é, da ideia de erro-polução para a ideia de que é o caráter o elemento definidor da ação do herói. Embora o conflito permanecesse sempre, pois de outro modo não haveria ato trágico, pode-se afirmar que, enquanto as personagens de Ésquilo seriam mais “prisioneiras” dos caprichos e desígnios dos deuses, as de Eurípides seriam “prisioneiras” de suas próprias idiossincrasias. Sófocles, é claro, seria o tragediógrafo da “justa-medida”, nem tanto lá, nem tanto cá.
 
Adolf Hiremy-Hirschl, Die Seelen des Acheron, 1898
Nesse sentido, embora a sensibilidade do homem contemporâneo esteja mais inclinada à tragédia euripidiana, que em alguns momentos chegou a anteceder a ideia de livre-arbítrio, conceito que os gregos antigos não conheceram e que só veio a se desenvolver com o advento do cristianismo, o teatro contemporâneo tem manifestado cada vez mais interesse pela tragédia esquiliana. Por rejeitar, até com certa veemência, toda forma de verossimilhança psicológica, característica sine qua non do drama tradicional, desenvolvido a partir de um conflito que gera uma ação, o teatro contemporâneo, basicamente assentado em concepções designadas amplamente de pós-dramáticas, numa espécie de retorno cíclico do tempo, algo tipicamente grego, tem se voltado com verdadeira paixão à poesia pré-dramática de Ésquilo. Nada mais fácil do que comprovar semelhante assertiva. Além do projeto “Peep Classic Ésquilo”, emcabeçado por Roberto Alvim, provavelmente o mais radical e controverso encenador do momento, que montou este ano em seu espaço, o Club Noir, todas as tragédias do autor, estão atualmente em cartaz, em São Paulo e no Rio de Janeiro, dois espetáculos inspirados na Oréstia, a obra-prima esquiliana: Átridas, com a cia. [pH2]: estado de teatro e direção de Maria Emília Faganello, na capital paulista; e Oréstia, com direção de Malu Galli, na capital fluminense. Nada mal para um autor morto há 2.467 anos e que escreveu numa língua há muito extinta, o grego arcaico. 
Rodrigo Morais
Os Persas, na montagem do Club Noir
Série Os Grandes Poetas Trágicos:
  Sófocles, o mais clássico dos tragediógrafos

Coluna: Teatro
 

 


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