Wittgenstein no front: guerra e filosofia na história do pensamento

por Homero Nunes

Por Gustavo Belleza


Afundado em uma profunda crise, marcada por problemas relativos à Lógica, aos quais tentava responder, e por questões éticas, íntimas, Wittgenstein resolveu alistar-se como voluntário do exército Austro-Húngaro, em 7 de agosto de 1914. No front da Primeira Grande Guerra o filósofo procurava um sentido para sua vida, ou um encontro definitivo com a morte.

Logo no dia 7 de agosto Wittgenstein foi enviado a um regimento de artilharia, na Áustria. Ao dia 9 do mesmo mês iniciou a redação de seu Tractatus Logico-Philosophicus, livro no qual tentou articular como a lógica da linguagem é capaz de representar a lógica essencial à realidade. Alguns dias depois já estava em uma embarcação de patrulha, chamada Goplana, no rio Vístula na Polônia, onde ficou responsável por manobrar o farol do navio, posição arriscada por determinar um alvo fácil e extremamente desejável aos inimigos. Em dezembro do mesmo ano, Wittgenstein foi enviado a uma companhia de artilharia, na Cracóvia, onde recebeu os privilégios de oficial, em decorrência de suas habilidades.

No ano seguinte, em 1915, o jovem Filósofo sofreu um acidente em uma explosão na oficina de artilharia, o que fez com que ficasse hospitalizado na Cracóvia, por um tempo. Ao sair do hospital, Wittgenstein foi enviado a mais um regimento de artilharia, abordo de um trem em Lviv (Leópolis), na fronteira entre Ucrânia e Polônia. Já em 1916, Wittgenstein foi transferido, a pedido próprio, para um regimento de artilharia, responsável por Canhões Howitzer, na região da Galícia (sul da Polônia). Nesse período, foi promovido a Cabo e enviado à escola de artilharia para oficiais em Olmütz (na atual Rep. Tcheca).

No ano de 1917, Wittgenstein participou da conhecida Ofensiva Kerensky (também na região da Galícia), a última ofensiva da Rússia contra o Império Austro-Húngaro e Alemanha, e da qual teve de bater em retirada. Por essa batalha o filósofo recebeu a condecoração de Mérito Militar e foi elogiado por “seu comportamento excepcionalmente corajoso, calma, sangue-frio e heroísmo que conquistou a admiração total das tropas”, de acordo com Alexander Waugh (2008).
Por fim, em fevereiro de 1918, Wittgenstein foi promovido a Tenente e enviado para o comando de um regimento de artilharia em Asiago, na Itália. Pelo seu desempenho em Asiago o Filósofo foi recomendado para a mais alta condecoração do Império Austro-Húngaro, a Medalha de Ouro pela Valentia, no entanto acabou sendo condecorado com a Faixa do Serviço Militar.


Wittgenstein, no decorrer da Guerra, foi conseguindo resolver seus conflitos éticos, íntimos, o que permitiu que conseguisse, também, resolver os problemas em Lógica que o ocupavam no período de seu alistamento. A solução de seus conflitos levou à original articulação entre Ética e Lógica, que define seu Tractatus Logico-Philosophicus, finalizado em agosto de 1918 e publicado em 1921.
Ironicamente, após a Guerra, confessa o Filósofo a um colega, que as motivações de seu alistamento eram claramente suicidas, o que talvez explique a escolha pelos postos mais arriscados de combate. No entanto, a Guerra e suas dificuldades parecem ter proporcionado a Wittgenstein uma experiência única, capaz de resolver seus problemas éticos e lógicos, e unificar ambos em uma única obra.
Ludwig Wittgenstein havia vencido a Guerra, e o Tractatusfoi, sem dúvida, o seu maior espólio.
Ludwig Wittgenstein (1889 – 1951)
Compensa:
Em vida, Wittgenstein publicou apenas um livro:
Tractatus Logico-Philosophicus

Após sua morte, foi publicado seu segundo livro:
Investigações Filosóficas
Também compensa:
Waugh, Alexander. The House of Wittgenstein: A Family at War. Random House of Canada, 2008.
PINTO, Paulo Roberto Margutti. Iniciação Ao Silêncio: Uma Análise Argumentativa do Tractatus de Wittgenstein. SÃO PAULO: LOYOLA, 1998.
Edição da Revista Cult sobre Wittgenstein

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