Uma linha! O sintético Stanislaw Ponte Preta em frases curtas e largo humor

por Homero Nunes

Sérgio Porto (1923-1968) publicou sob um dos melhores pseudônimos já criados: Stanislaw Ponte Preta. Sonoro e misterioso, dava nome e sobrenome aos irônicos, sarcásticos, cínicos e muito bem humorados textos do jornalista. Capaz de dizer muito com poucas palavras, Ponte Preta se destacou pelo poder de síntese, em frases afiadas e incorretas. Criou personagens folclóricos no jornalismo brasileiro, como a Tia Zulmira, uma velhinha careta e saliente, que apontava o dedo para as “modernidades” da vida e soltava tiradas filosóficas sobre o cotidiano. Mas o mais destacado dos personagens foi ele mesmo, o “Lalau”, que de tão conhecido chegou a ser tratado pelo apelido.











Os personagens: Stanislaw Ponte Preta, Tia Zulmira, Bonifácio, Rosamundo e Altamirando.


Stanislaw Ponte Preta, Ipisis litteris, em uma linha:
Antes só do que muito acompanhado.
Hoje em dia ninguém é bonzinho de graça.
Desligou o telefone com uma violência de PM em serviço.
Ser imbecil é mais fácil.
Imbecil não tem tédio.
Ninguém se conforma de já ter sido.
Quem dá aos pobres e empresta, adeus!
Ficou numa melancolia de pinguim no Piauí.
Pra quem gosta de jiló, coruja é colibri.
O terceiro sexo já está quase em segundo.
Rabo e conselho só se deve dar a quem pede.
Mulher enigmática, às vezes é pouca gramática.
Se o Diabo entendesse de mulher, não tinha rabo nem chifre.
Dono de cartório de protesto é uma espécie de cafetão da desgraça alheia.
Há sujeitos tão inábeis que sua ausência preenche uma lacuna.
Tinha tal pavor de avião que se sentia mal só de ver uma aeromoça.
Uma feijoada só é realmente completa quando tem uma ambulância de plantão.
Os valores morais são os únicos que conservaram os preços de antigamente.
Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!
Nem todo gordo é bom, muitos se fingem de bonzinhos porque sabem que correm menos.
Quando estamos fora, o Brasil dói na alma; quando estamos dentro, dói na pele.
Quando acabou aquele velório teve-se a impressão de que o morto ficou mais aliviado.
Macrobiótica é um regime alimentar para quem tem 77 anos e quer chegar aos 78.
Difícil dizer o que incomoda mais, se a inteligência ostensiva ou a burrice extravasante.
Se peito de moça fosse buzina, ninguém dormia nos arredores daquela praça.
Era desses caras que cruzam cabra com periscópio pra ver se conseguem um bode expiatório.
O marido enganado é um homem que se engana a respeito da mulher que o enganou.
Política tem esta desvantagem: de vez em quando o sujeito vai preso em nome da liberdade.
Às vezes, eu tenho a impressão de que meu anjo da guarda está gozando licença-prêmio.
Por mais eficaz que sejam os métodos novos de fazer criança, a turma jamais abandonara o antigo.
Se você não acredita que o reino do céu é aqui, repare então como os pobres de espírito se divertem.
Conversa de bêbado não tem dono.
Estava tão mal que mais parecia reserva do Bonsucesso.
Mais duro do que nádega de estátua.
Mais feio que mudança de pobre.
Mais monótono do que itinerário de elevador.
Mais por fora do que umbigo de vedete.
Mais inútil do que um vice-presidente.
Mais inchada do que cabeça de botafoguense.
Mais suado do que o marcador de Pelé.
Mais mole que bochecha de velha.
Mais murcho do que boca de velha.
Mais assanhado do que bode velho no cercado das cabritas
Mais vale um filé no prato do que um boi no açougue.
Referências:

Renato Sérgio. Dupla Exposição: Stanislaw Sérgio Ponte Porto Preta. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998. 368 páginas.
Biografia



PORTO, Sérgio. O Melhor de Stanislaw Ponte Preta. José Olimpio Ed., 2011. Organizado por Valdemar Cavalcanti, com ilustrações de Jaguar. 228 págs.
Seleção de crônicas




Bibliografia do autor:
Como Stanislaw Ponte Preta
Tia Zulmira e Eu (1961)
Primo Altamirando e Elas (1962)
Rosamundo e os Outros (1963)
Garoto Linha Dura (1964)
FEBEAPÁ1 (Primeiro Festival de Besteira que Assola o País) (1966)
FEBEAPÁ2 (Segundo Festival de Besteira que Assola o País) (1967)
Na Terra do Crioulo Doido – A Máquina de Fazer Doido (1968)
FEBEAPÁ3 (1968)
Como Sérgio Porto
A Casa Demolida (1963)
As Cariocas (1967)
A velhinha contrabandista (1967)


Em 1966, os diretores Fernando de Barros, Walter Hugo Khouri e Roberto Santos adaptaram “As Cariocas” para o cinema. Com Norma Bengell, Lilian Lemmertz, José Lewgoy no elenco.

Em 2010, a Rede Globo produziu a série “As Cariocas”, dirigida por Daniel Filho e encenada por uma penca de atores globais.



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