Teoria da livre interdependência

por Homero Nunes

Por Adrilles Jorge


Liberdade é um angu de caroço sócio-filosófico, histórica e conceitualmente. Pode tanto ser qualificada como a autonomia da razão como a independência do ser. Ambas, utopias enguiçadas. Sócrates foi lá dissecar os preconceitos da razão para estabelecer a livre associação de ideias sem preconceitos e os sofistas o condenaram a se suicidar porque achavam que liberdade supimpa mesmo é sofismar e empurrar a verdade pra onde lhe for mais conveniente, posto não haver verdade absoluta que não seja pré-concebida. Descartes matematicamente mandou o sujeito conhecer todas as premissas possíveis antes de se aventurar numa escolha, criando uma certa liberdade “econômica-quantitativa”, por assim dizer. Schopenhauer embatucou na ideia de que liberdade de ação era determinada pela vontade e que a vontade, meu filho, não libera ação nenhuma que não seja aprisionada por ela, a vontade. Marx, lá pelas tantas do século XIX, espinafrou todo mundo e disse que, sem grana, ninguém é livre e que todo mundo é alienado pelo capital. Foi o mote para Sartre dizer que a gente só nasce com o primeiro salário, ainda que estejamos condenados a ser livres, mesmo que optemos por ser escravos, capiscam?


Pois bem, de tudo isto (e muito mais), pressupomos que liberdade é uma utopia a ser buscada, mas nunca alcançada de todo. E que total independência é ilusão, tanto material quanto transcendentalmente. Financeiramente, conceitualmente, metafisicamente somos todos dependentes, indivíduos e estados, dependentes dos pais aos patrões, de nossos ideais forjados às nossas ideias pré-concebidas do que venha a ser liberdade ou independência. Mais simples talvez falar em algo como “livre interdependência”. E aí, há que se fugir dos rumos da prosa objetiva para entrar num conceito mais afeito aos vieses verbais da poesia, que escapa às dependências do rigor conceitual de um conceito movediço em si:

Independe de nossa liberdade
nossa utopia de independência:
depende do olhar alheio a afirmação movediça
da criação de uma personalidade;
depende de nossa invenção a abstração
de nosso desejo por algo ou alguém;
depende de algo ou alguém
a aceitação da ação de nosso desejo.
Depende de nossa escolha a liberdade
viável a que nos conformam
teses dependentes de seus criadores;
depende de suas criaturas a conformação
do que venha se chamar liberdade.
Depende de um patrão, estado, organismo
a liberdade econômica de nosso sustento.
A sustentação de um estado, patrão, engrenagem
é dependente do consumo de seus empregados,
consumidores de produtos-roupas,comida, livros, ideias-
que alimentam apetites, fetiches, vaidades que os consomem.
Para criação de nossos produtos- ideais, sapatos, poemas-
dependemos da produção anterior
para desenvolvimento do futuro
à  base do passado.
Dependemos do acaso para além de nossos esforços
Que nos oferece e retira condições e circunstâncias.
Dependemos sobretudo
do empréstimo
de uma razão de viver
que damos de graça à vida-
que depende de nós
enquanto conceito dependente
de nossa criação, observação e sobrevivência.
Compensa:
PLATÃO. Apologia de Sócrates.
Sobre o julgamento de Sócrates
Download gratuito em:

PLATÃO. Fédon.
Sobre os últimos ensinamentos de Sócrates antes da cicuta
Baixe grátis em:
DESCARTES. Discurso do Método.
on-line in:
SCHPENHAUER. O Mundo como Vontade e Representação.
e-book:

MARX. O Capital.
Domínio público:
SARTRE. O Existencialismo é um Humanismo.
Em pdf:

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