Roque Santeiro, aquele que foi sem nunca ter sido

por Homero Nunes
por Rodrigo Morais


Há trinta anos, no dia 24 de junho de 1985, começava a ser exibida pela TV Globo Roque Santeiro, novela destinada a se tornar a melhor que a televisão brasileira já produziu. Baseada na peça O Berço do Herói (1963), de Dias Gomes, e escrita pelo próprio em parceria com Aguinaldo Silva, Roque Santeiro literalmente parou o país, atingindo picos de audiência que, dizem, chegaram aos cem por cento em alguns momentos. Tive a oportunidade, e o privilégio, de assisti-la três vezes: no ano de estreia e, depois, nas reprises vespertinas do “Vale a Pena Ver de Novo”, em 1991 e 2000. Em todas elas, mesmo em 2000, quando já iam longe meus tempos de criança, eu me diverti à beça, não percebendo qualquer sinal de “ruga” na obra. Em tempo: antes de estrear como novela, em 1985, tanto a estreia da peça, ocorrida em 1965, quanto a estreia de uma outra versão televisiva, de 1975, foram embargadas pelos órgãos censores da ditadura civil-militar brasileira.


Além do enredo, um verdadeiro achado dramatúrgico, baseado na figura de um falso herói cujo mito alimenta a economia de uma cidade inteira, o que mais impressiona em Roque Santeiro é a força de suas personagens. Praticamente todas elas estão plenas de vida, perfazendo ótimas caricaturas de tipos como, por exemplo, o burguês mesquinho (Zé das Medalhas), o senhor de terras truculento (sinhozinho Malta), a perua espalhafatosa (viúva Porcina), o marido moleirão (seu Florindo), a megera (in)domada (dona Pombinha), a falsa recatada (Mocinha) e o líder messiânico (beato Salú). Não seria absurdo afirmar que a personagem menos interessante da novela, embora fundamental para o desenrolar da trama, é a principal, isto é, o próprio Roque, interpretado pelo saudoso José Wilker.


Apesar do sucesso colossal, ou por causa dele, consta que, nos bastidores, a relação entre os autores não era nada boa, com ambos protagonizando brigas homéricas um com o outro do primeiro ao último capítulo. Na redação deste, a tensão chegou ao ápice, visto que cada um queria um final diferente para a história. Na queda de braço estabelecida entre os dois, prevaleceu o final redigido pelo criador do argumento original, Dias Gomes, inspirado no desfecho do filme Casablanca (1942), com a viúva Porcina desistindo de fugir com Roque para ficar com sinhozinho Malta. Final bastante pessimista, diga-se de passagem, lembrando que, ao fugir sem se revelar, Roque deixava a cidade de Asa Branca entregue aos poderosos locais, que continuariam a enriquecer abusando, em seu nome, da fé alheia. Quando eu digo que Roque Santeiro não envelheceu… A opção de Porcina reforçaria o pessimismo da obra, significando a vitória completa do simpático mas terrível sinhozinho Malta, o todo poderoso coronel da região. Felizmente, em 2010, a novela foi lançada em dvd numa edição compactada, o que permite às novas gerações conhecerem-na sem a necessidade de outras reprises, para que ao menos saibam que um dia houve vida inteligente na televisão brasileira. “Tô certo ou tô errado?”


Coluna: Bric-a-brac


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