Roma (a minissérie), mais do que uma aula de história, uma aula de teledramaturgia

por Homero Nunes

Por Rodrigo Morais

Alea Jacta Est


“Vamos para onde nos chamam os prodígios dos deuses
 e a iniquidade dos nossos inimigos.
A sorte está lançada.” 
Júlio César*
Coprodução da BBC, HBO e RAI, a minissérie Roma, lançada em 2005, pode ser qualificada tranquilamente como um dos melhores trabalhos audiovisuais já realizados, e quando digo “trabalhos audiovisuais” estou incluindo não só a televisão, meio tão desprezado, mas também o cinema, considerado a “sétima arte”. Estabelecendo um recorte temporal que vai da conquista da Gália por Júlio César e o início das hostilidades entre este e seu genro Pompeu até a aclamação de Otávio como o primeiro imperador, que a partir de então se tornaria Otávio Augusto, Roma é muito melhor (repetindo: muito melhor) do que qualquer filme feito até hoje cujo pano de fundo tenha sido aquela extraordinária civilização. Focando-se exclusivamente no período mais conturbado e, ao mesmo tempo, mais interessante da história romana, a minissérie é um primor não só em termos de fidelidade factual, mas também, e principalmente, em termos de dramaturgia, levando em consideração que seu roteiro logrou integrar, com incrível perfeição, as esferas “micro” e “macro” da trama.

Aquilo que antigamente se chamava “estória”, isto é, o núcleo ficcional do entrecho, concentrou-se, basicamente, em duas personagens masculinas: Lúcio Voreno e Tito Pulo, ambos legionários do exército de César e há oito anos longe da terra natal. O oposição estabelecida entre eles é mais do que manjada para se delinear os devidos caracteres: enquanto o primeiro seria o “certinho” (abstêmio, casado e, ainda por cima, fiel à esposa), o segundo seria o “tresloucado” (bebedor,  solteiro e mulherengo). Já aquilo que antigamente se chamava apenas “história” todo mundo já sabe ou deveria saber, pois se trata da época das grandes guerras civis romanas (Farsália, Filipos, Áccio), por detrás das quais agiram homens como Cícero, Marco Antonio, Brutus, Cássio, Cleópatra (sic), além dos já citados César e Pompeu. Ao contrário de muitas obras teatrais, romanescas ou cinematográficas de cunho histórico, que pecaram ou porque o pano de fundo permaneceu vago e impreciso, ou porque os dilemas pessoais que nele transitaram (ficcionais e “reais”) não se engastaram satisfatoriamente, em Roma nenhuma das partes deixou a desejar: além de uma aula de história, a minissérie proporciona ao seu espectador uma verdadeira aula de (tele)dramaturgia, com todas  as personagens se movendo plenas de vida por entre as muitas conspirações e conchavos políticos que inaugurariam uma nova era do mundo ocidental.

Amo a glória mais do que temo a morte.
Júlio César

Se o leitor crê que estou exagerando nos encômios, ou que se trata de condescendência minha para com um “mero” produto televisivo, saiba você que, pelo menos neste caso, não posso ser acusado de pusilanimidade crítica, até porque isso soaria paradoxal, se considerarmos que, além de estudioso de dramaturgia, sou também um romanófilo de carteirinha. Ademais, não bastassem as inequívocas qualidades do roteiro, é necessário deixar aqui registrado também as qualidades da produção, ou, melhor seria dizer, superprodução, que se revelam na excelência dos atores (todos ótimos), dos cenários, do figurino e da direção, sempre ágil e segura. E ainda há mais uma coisa a acrescentar, uma curiosidade que eu jamais deixaria escapar: toda a minissérie foi filmada em Roma, nos estúdios da antológica Cinecittà, onde grandes cineastas como Federico Fellini e Luchino Visconti deram à luz muitas de suas obras-primas. Tamanha soma de atributos cobrou seu preço, no sentido real e figurado, que no caso de Roma foi pago com a realização de apenas duas temporadas, deixando naqueles que tiveram o prazer de assisti-las o inefável gostinho de “quero mais” (com o perdão do clichê). Independente de sua curta duração, um novo filão havia sido descoberto, filão que teve a serventia de viabilizar a produção de outras séries de qualidade, como Família Soprano por exemplo.


Veni, vidi, vici
Vim, vi, venci
Júlio César após a batalha contra Fárnaces

Diante de tudo o que foi exposto, cabe agora transmitir algumas informações de utilidade pública aos interessados em se aprofundar no assunto que ensejou a série televisiva. Em que pesem as imensas facilidades da vida contemporânea, que nos permitem alugar ou até “baixar” todo o seriado pela internet, digo e afirmo que vale a pena tê-lo em DVD original, mesmo que para isso você tenha que desembolsar um dinheirinho nada desprezível (R$ 89,90 a caixa contendo as duas temporadas). Outra informação importante diz respeito a alguns (deliciosos) livros que serviram de fonte para os roteiristas de Roma, como As Vidas dos Doze Césares, de Suetônio, e Vidas Paralelas, de Plutarco, ambos historiadores romanos que viveram no tempo do Império. Obras acessíveis e fluentes, garanto que ninguém se arrependerá de lê-las, antes ou depois de ver toda a série (de preferência, antes). Para finalizar, um rápido adendo: somente no último episódio os roteiristas se deram ao luxo de lançar mão daquilo que se costuma designar “liberdade poética”, quando “salvaram” da morte o filho que César teve com Cleópatra. Na história “de verdade”, com medo que o ainda menino Cesário um dia pleiteasse o poder, Otávio ordenou seu assassinato após a batalha do Áccio. Na série, ele sobreviveu à invasão do Egito e passou a viver em Roma, anônimo, com Tito Pulo. Contudo, vale ressalvar que essa interferência, do tipo deus ex machina, foi feita com tal maestria dramática, que se tem a impressão de que os autores estariam “piscando” para o espectador, já antevendo sua complacência e consentimento.
*Alea jacta est – A sorte está lançada
Frase pronunciada por Júlio César na travessia do rio Rubicão,que simbolizou a declaração de guerra contra Pompeu

Compensa:
Box Roma – com as duas temporadas
Plutarco
Vidas Paralelas
Suetônio
As Vidas dos Doze Césares


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