Pseudo-intelectual: um animal em expansão

por Homero Nunes

por Adrilles Jorge

Ao contrário da variedade de espécies em extinção na fauna brasileira, o pseudo-intelectual é um tipo animal em expansão. Reproduz-se abundantemente e em série em universidades e se mescla ao ambiente social. São facilmente identificáveis: têm o mérito paradoxal da extrema inteligência em manter uma aparência intelectualizada e o status da grandiloquência verbal e psíquica através de frases de efeito e discursos liberais, angariando vários admiradores que, por projeção assexuada, reproduzem os meandros pseudistas de seus mestres. Professores e alunos assim fazem troca-troca de valores abstratos como a liberdade, o progresso, a esquerda, etc., e atacam vertiginosamente a hipocrisia social em geral que persegue as minorias que conformam a maioria da população. “Em geral” é toda a atitude e todo o discurso de um pseudo típico que sempre ostenta a aparência de quem é estudioso e especialista, mas jamais perde seu precioso tempo livre lendo ou se aprofundando em alguma coisa que não seja um conjunto de frases de ordem e manifestos incisivos de libertação das forças sociais e sexuais . Um pseudo legítimo aprende com a “vida”, prescindindo de sintaxes, textos ou subtextos que contenham mais de duas frases objetivas. O discurso típico do pseudo é o ataque às instituições, à mídia burguesa, à moral cristã, ao capital e a todos os inúmeros demônios que impedem a livre manifestação da pseudo- intelectualidade que não cristaliza exatamente quais seriam suas aspirações, mas se insurge contra o que ela vê como ameaça permanente à livre movimentação de seus falsos pés que não sustentam seu poroso discurso. Pois os pseudos sempre dizem prezar o fundo em detrimento da aparência, mas a aparência de um pseudo é seu fundo, pois o fundo, na pseudo-verdade, é uma ilusão da moral burguesa e da mídia capitalista, claro. E o fundo está na aparência pseudista: os sarongues, as sandálias franciscanas, os cabelos desgrenhados, as barbas por fazer, as roupas artesanalmente puídas, os banhos atrasados, o aroma de ervas ocultas e até mesmo algumas falhas dentárias em casos radicais – tudo produzido em série, como num exército – são em si uma manifestação cultural uniforme que se insurge contra o status quo das elites – que, segundo os pseudos, não frequentam as universidades, claro. Um certo conhecido professor que abraça todo o élan fashionista de um pseudo esfarrapado, desbanhado e despreocupado com a aparência, teve rasgos de êxtase sexual quando confundido com um mendigo: “o burguês hipócrita me julga pela aparência!” gritou exasperado de emoção; “minha aparência mendicante é a manifestação sublime de minha superioridade moral e intelectual!”, deve ter pensado inconscientemente.
Em sua ação socialmente efetiva, os pseudos tramam em botecos revoluções abstratas contra as milícias ocultas do estado ditatorial, enquanto digitam mensagens com críticas acerbas contra a ignorância elitista em redes sociais em seus IPhones de última geração . E mesmo quando representantes clássicos da pseudice se encontram no poder, conseguem os pseudos a proeza de criar a elite não-governamental que se apodera dos meios de comunicação para envergar a legítima (pseudo) representação popular. Sim, pois não importa a situação de um pseudo, sua presença sempre se dá no lugar da vítima preferencial e/ou defensor das minorias que, mais uma vez, juntas formam a maioria: gays, negros, aleijados, míopes, zarolhos, anêmicos, índios, sem cuecas, sem sexo, todas as minorias são pseudo-protegidas pela pseudice organizada. E às vezes, vejam só, até o estado sucumbe à tal ideologia pseudo.
Sim, claro, estes mesmos pseudos possuem uma produção pseudista: pseudo-poemas, pseudo-romances, pseudo-canções, todas estas obras contendo em seu padronizado aparato de sustentação todas as pretensas verdades absolutas e sem o tal famigerado fundo burguês: sempre muita liberdade, muito amor, muita solidariedade e quase nenhuma sintaxe ou oratória, estes vícios aristocratas de uma civilização decrépita. Desnecessário dizer que todo pseudo-intelectual é um legítimo pseudo- artista que angaria um rebanho de admiradores reais que se quedam ao charme sexual da pseudice empertigada. Um pseudo não só atrai outro, mas produz outro pseudo. Eis o segredo de sua fertilização crescente.
Por fim, há uma nova classificação pseudista: os pseudos blasé, os que fingem não ser pseudos. Têm a mesma indumentária e o mesmo comportamento ideológico clássico da pseudice em geral, mas adoram ironicamente programas populares, grupinhos pop, pagodeiros, artistas popularescos, representantes da pura vulgaridade popular por terem uma atitude “cool” em relação à cultura que creem dominar e tratar com desdém distanciado. Fica a impressão que só o desdém cultural é real, mas tudo bem: se algo é real em um pseudo, é a superfície estilística e aparente de sua inteligência, não?
Adrilles Jorge




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