Pílulas de literatura: Tolstoi e A Morte de Ivan Ilich

por Homero Nunes
“’Viver? Viver como?’, indagou a voz em sua alma.
‘Sim, viver como eu vivia antes: agradavelmente, facilmente.’
‘Como é que tu vivias agradavelmente e facilmente?’, indagou a voz. E começou a passar em revista na imaginação os instantes melhores de sua agradável existência. Mas – coisa estranha! – esses instantes tomavam aos seus olhos um aspecto inteiramente diverso do que outrora possuíam. Todos, à exceção das primeiras lembranças de sua infância. Houvera na sua infância algo verdadeiramente belo que o teria ajudado a viver agora, se lhe fosse possível ressuscitá-lo. Mas aquele que vivera esse algo não mais existia: era como se se tratasse de outro homem.
Nem bem começavam aquela série de acontecimentos que tinham finalmente redundado no Ivan Ilitch atual, todas as alegrias que ele vivera, que então lhe pareciam como tais, dissipavam-se diante de seus olhos e transformava-se em algo mesquinho e até mesmo vil.
E quanto mais as recordações de Ivan Ilitch se afastavam da infância, mais se aproximavam do presente, mais as alegrias que vivera lhe pareciam duvidosas e ocas.”

TOLSTOI, Liev. A Morte de Ivan Ilitch. 1866.
(L&PM Pocket, 2015, Cap. IX, p. 70)

Imagem: Frédéric Bazille, Hospital de Campanha Improvisado, 1865


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