Paulo Francis: a alta cultura é pop

por Homero Nunes
Por Adrilles Jorge

Paulo Francis: erudito, popular, histriônico, desaforado, caricato, politicamente incorreto, polemista por vocação e definição. Francis foi o último de uma geração de gigantes da crítica cultural e política. Inaugurou um texto ágil, incisivo, de um ritmo virulento, sem rococós , em que discorria sobre todos os assuntos, de Heidegger à Dercy Gonçalves, com maestria e malemolência; um texto cuja firmeza de opinião deixava entrever que a verdade era sempre uma angulação do ego e não um manual de idiotia da objetividade. Na televisão, criou uma persona de ópera bufa, sem no entanto perder o carisma e a profundidade, ainda que adornada de canastrice popularesca. Era brilhante e divertido, até quando errava ou exagerava. Foi um dos meus heróis de infância e uma das razões de eu ter feito faculdade de jornalismo. Ingênuo que fui. Na universidade, só encontrei marxismo de butique acadêmica, teoria da comunicação pasteurizada em esquerdismo de boteco, lições de correção política anódina e deslumbramento com um suposto jornalismo cidadão, que lambe a cobertura de buracos de rua e de batuque Funk de favela. O jornalismo sem o Francis e o que ele representava tornou-se provinciano, fuinha e vulgar como um lide de reportagem sobre integração social. Mas fazer o que? O mundo também tornou-se vulgar e fuinha, não só o jornalismo. A cidadania jornalística continua tendo seu último representante no Francis, em sua alta cultura golfada em didática pop, uma contradição em termos que nele dava brilhantemente certo.
Por Adrilles Jorge

 Paulo Francis 1930 – 1997

Compensa:

Waaal: o Dicionário da Corte de Paulo Francis

Acaba de ser lançada, 2012, uma antologia sobre os 15 anos de Francis na Folha:
Diário da Corte
Compensa demais o documentário Caro Francis (2009). Hilário!



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