O que não se atravessa não presta

por Homero Nunes

por Adrilles Jorge

Dispor as partes de um todo, examinar com minúcia cada elemento, destrinchá-lo e integrar tudo num saboroso sopão a que se chama ideia. Esta a paixão de filósofos e cientistas desde Sócrates, que se regozijava atacando os retóricos que catavam aqui e acolá algum elemento do discurso e o adaptava à classe específica de pessoas que queriam seduzir com suas oratórias sub-repticiamente intencionadas. Supimpa a utopia da nobre investigação socrática da verdade, não? Mas e quando o tal todo se fragmenta em firulas especulativas? Destrinchar um organismo vivo como o corpo de um sapo é bem mais fácil que sondar as entranhas do universo de hoje, em que nossa morada terrestre foi arrastada para uma humilhante galáxia periférica na ordem do cosmos. Que dirá para o que vai além da matéria, como sonham os metafísicos. Mas aí é que está. A função da filosofia é exatamente se sobrepujar em seus propósitos. Se o pensamento que se proclama sofisticado não cutuca na metafísica, não tem função; se o pensamento não ultrapassa sua finalidade, perde seu fim último. Até o corpo do sapo destrinchado tem um mistério em sua “anima” que esvazia o sentido primário de sua organicidade. Ok, o sapo vive e funciona de tal modo, mas e daí? Qual a função do sapo na ordem dos sentidos? Sócrates, o razoável racional, falava alegoricamente, poeticamente, das asas perdidas das almas que se eriçavam nas costas de alguém quando lhe assomava a lembrança feérica do mundo ideal e que as tais asas coçavam como as gengivas de crianças com sua primeira dentição. Pura poesia didática – ainda que meio duvidosa para os dias de hoje. A poesia ultrapassa a filosofia e é a origem dela e não apenas um beletrismo gongórico em seu cerne. Visto que, para desespero póstumo de Platão e Sócrates, por mais bem-intencionada que seja, a atividade do pensamento sistemático jamais será objetiva em seus meios muito menos em seus fins. Platão expulsou os poetas da república provavelmente por egocentrismo, por querer ele ser o único poeta filosófico sabendo ele – inconscientemente ou não – que todas as preocupações filosóficas estavam no cerne da poética da mitologia grega. Mortalidade, alma, vingança, dor, paixão, traição está tudo lá nos novelões trágicos de Ulisses, Édipo, Electra, Helena de Tróia e o diabo a quatro. Só a poesia ultrapassa com garbo as fronteiras da razão que é limitada pelo plexo solar dos símios que se proclamam humanos. A razão limitada histórica e fisiologicamente está a serviço de sua ultrapassagem. E a filosofia lança mão de sua mãe (ou de seu subconsciente), a poesia, para tais meios.
Adrilles Jorge

 Salvador Dalí, O Sono, 1937


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