O meio e seus arredores

por Homero Nunes
Elucubrações Antropofágicas
por Adrilles Jorge


Houve um tempo remoto e idílico em nossa aldeia tupiniquim em que a ideia de superação pessoal e social correspondia à elevação de seu meio, elevando-se o indivíduo e o próprio meio com a elevação do dito cujo. Através da superação pessoal e da imposição de seu talento inato e arraigado em suas aquisições culturais, o sujeito se elevava e elevava com ele seu entorno. Alguém como Machado de Assis, nascido mulato, pobre, favelado em pleno século XIX, filho de pais semi-letrados, se tornara ícone nacional, mundial da literatura, saindo da miséria social e cultural de onde vivia, tornando-se erudito, culto, catapultando-se a mito como maior escritor brasileiro.

Hoje em dia a fábrica da mitologia é invertida. A ascensão social individual em geral dá-se não pela superação da vulgaridade mas pela reiteração da mesma comungada entre seus pares; dá-se pela afirmação da própria mediocridade e de sua reverberação entre a mediocridade comum das pessoas em redor que compartilham uma mútua e celebrada vulgaridade. O paradigma da elevação do meio que consagrou Machado de Assis cheira a elitismo pelos bons pensantes do país. Nada de Camões, latim e nenhum cheirinho de alta cultura para elevar-se do meio. O meio passa a ser celebrado, qualquer que seja, em raps’s de apologia ao crime e ostentação de bens materiais como carros, correntes de ouro e mulheres que se compram e vendem como peças de açougue. Tudo isto celebrado pelo já famigerado relativismo cultural antropológico.
Não se eleva do meio, insere-se nele e dele se retira o que há de pior, espalhando a vulgaridade em comunhão com seus iguais. O público consumidor, quando não sente a comichão do reflexo da própria mediocridade, sente, quando se considera de uma certa elite – econômica que se confunde com a cultural que inexiste – até mesmo o prazer da superioridade moral por sobre um legítimo vulgar que faz sucesso e que está abaixo dele, consumidor pseudo-elevado, que se regozija de sadismo diante do sucesso imerecido de algum semianalfabeto sem talento ou caráter algum que vende sua imagem em algum reality show ou compõe alguma musiquinha de refrão infame e sexista pra aparecer em algum programa popular da TV como o “Esquenta”. Mal sabe este consumidor que sua sanha de sadismo superior o nivela mesmissimamente ao vulgar bem sucedido. Proust já dizia que “só um idiota presta excessiva atenção à idiotice de outrem”. Esta a regra, o mantra de nossa sociedade.
A ascensão de um Machado de Assis é Lenda minguada confinada num mundinho em que superação de origens é a adequação ao meio, não a superação ou elevação do mesmo. Ninguém mais ousa dizer que fulano tem uma origem ruim, culturalmente ruim, pobre, porque segundo o ranço academicista, todas as culturas se equivalem. Pra que então aprender grego ou francês, estudar Proust – ou mesmo Machado de Assis – se se pode aprender a língua do gueto e tocar o terror com letras sexistas e misóginas ao estilo do Mano Brown, celebrando a porcaria como meio social inalienável?
Reflexão sobre a natureza humana transformou-se em elitismo etnocêntrico hoje em dia. O mais curioso é o endosso acadêmico da legitimação da barbárie cultural (ou não-cultural, melhor dizendo) que endossa a vulgaridade como meio elevado, quando este pessoal que frequenta coisas como o “Esquenta” ou outros guetos midiáticos e geográficos nem sabe que a academia existe. Ao contrário: é a pobre academia tupiniquim, minguada entre apelos de cotistas, expurgada de rankings mundiais de universidades, que busca se alavancar na onda do sucesso dos tais legítimos vulgares que não querem nem precisam de legitimação intelectual, visto nem saberem o que é isto.

Pode parecer uma questão frugal, mas não é. Ao endossar a vulgaridade como legítima por um raso discurso relativista antropológico, a intelectualidade (pseudo) do país vira as costas para potenciais novos talentos reais, desestimula novos talentos reais. Ao relativizar a cultura colocando Valesca Popozuda no mesmo balaio que Kant, menosprezando o conceito de alta cultura, simplesmente se sufoca, se mata qualquer ressurgimento ou possível ressurreição da alta cultura; simplesmente se mata Machado de Assis em favor de Mr Catra e similares.

Tudo tem seu lugar, mas os lugares estão espalhados sem hierarquia, alguns lugares fundamentais perdidos mesmo, uma vez que todos os bens culturais se inserem no meio e o meio sufoca a superação do meio. Bernard Shaw dizia que o homem comum se adapta ao meio e o superior faz com que o meio se adapte a ele. O meio hoje matou o homem superior por ressentimento, por inveja. Ao se eliminar a distinção entre alta, média e baixa cultura, abre-se o precedente para uma crise moral, de valores (precedente já efetuado, todos sabem). Porque toda decadência estética, artística, precede uma crise moral. Excesso de relativização tem como consequência o nivelamento por baixo, em todos os âmbitos. E nivelamento por baixo observado aqui com a legítima guarita da suposta intelectualidade do país. Mas quem disse que os representantes oficiais de nossa inteligência contemporânea merecem ser nivelados por cima, não é mesmo?

Por Adrilles Jorge

Imagens:
1) Vik Muniz, após a Medusa de Caravaggio
2) Machado de Assis
3) todas as seguintes: by Banksy




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