O humor como filosofia torta

por Homero Nunes

por Adrilles Jorge

Humor é recurso que revira a tragédia pelo avesso. A vida é trágica justamente pelo que ela tem de mais patético: sua falta de explicação inerente à explicação aleatória que inventamos sobre ela, (des)explicação esta que nos causa um amontoado de prazeres frugais e uma infindável procissão de dores reais. Humor neste sentido é a filosofia máxima de vida e sua poética torta que a enxerga tortuosamente como ela é: torta, enviesada, esquiva. Coincidentemente, dois grandes humoristas brasileiros que enxergavam e exerciam – ainda que distintamente – o humor na real medida de sua grandeza morreram na mesma semana neste mesmo ano: Chico Anysio e Millôr Fernades. Chico operou o humor popular como nenhum outro no país (e como poucos no mundo) criando um caleidoscópio de tipos humanos, essencialmente brasileiros, que sustentavam uma crítica de costumes da sociedade tupiniquim. Provou que podia ser popular, sem ser vulgar, sutil sem ser hermético, para desespero dos pseudo-eruditos e verdadeiros popularescos. Millôr, por sua vez, exerceu o humor na sua plenitude de inversão, justamente revirando os conceitos pré-estabelecidos e intenções pré-concebidas, concebendo uma alta literatura que concebe a diversão pela tragédia, grau máximo a que aspira todo humorista e todo gênio literário. Ambos deixaram vivas suas obras e memória. E deixaram órfãos um tipo de humor que, até segunda ordem ou ressurreição, tem permanecido morto no país: o humor que nasce da dor e que age como catarse catalisadora da inteligência, do talento e da vontade de permanecer vivo, apesar da graça que se perde no caminho.


*Imagens: Millôr
1) da galeria “Vão Gogo”, 1949
2) Ecce Momo (Nada Consta), 1975

Também compensa:

 Definitivamente Millôr: humor inteligente em frases curtas e mordazes


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