O gênio que redime o canalha

por Homero Nunes
Por Adrilles Jorge


Boa índole e retidão moral garantem o caráter. Não exatamente o talento, muito menos o gênio, que, por sua vez, talvez pelo mimo do próprio ego, deslumbrado com seus próprios poderes encantatórios, reconstrói o tal caráter à imagem e semelhança de sua vaidade, nem sempre moralmente muito apetecível. Abundam casos de grandes pensadores e criadores que derraparam na disciplina “moral e ética”: não na escola, mas na vida mesma, esta mesma que ajudaram a edificar em suas obras. Vejamos alguns exemplos:
Wagner, que transformou mitologia em música sublime, também ajudou a cravar preconceitos históricos, como em um ensaio publicado que classificava o povo judeu de “demônio causador da decadência da humanidade”. Não à toa, era o músico predileto de  Hitler, que o consagrou como trilha clássica do nazismo. Na mesma onda do antissemitismo, o escritor Louis-Ferdinad Céline, que revolucionou a linguagem lançando mão de ritmos e termos populares em seus romances, andou publicando uns panfletos antissemitas no auge do nazismo. A despeito de seu enorme talento e celebridade, só meia dúzia de pessoas compareceu a seu enterro, envergonhados pelo autor até hoje maldito por suas opiniões. Poucos também entenderam porque diabos Heiddegger, um dos maiores pensadores do século, flertou com o nazismo – e também com a judia Hannah Arendt – declaradamente, enquanto publicava sua célebre “carta sobre o humanismo”. Talvez deva ser por isto que o autor disse que o sentido da filosofia era “deixar as coisas mais difíceis, não mais fáceis”. Difícil entender porque o filósofo piscou para Hitler e o holocausto e nunca sequer se arrependeu.
Mas não é só na esfera política, mas também na cotidiana, que grandes heróis do humanismo, da ciência e da arte escorregaram na casca de banana da sutil subversão moral (às vezes avessa ao próprio sentido de suas obras). O cotidiano comezinho de alguns autores também é emblemático neste sentido numa miríade de pequenos exemplos constrangedores: Marx condenava os males do capitalismo e viveu sustentado pela herança da esposa e explorava um amigo industrial; Engels, outro notório comunista, explorava as benesses sexuais das baixas classes através do assédio às suas empregadinhas; Tolstoi era um humanista que surrava seus cavalos; Einstein tratava a mulher com supremo desdém, comunicando-se com ela apenas por cartas e bilhetes, em que dizia abertamente: “você não deve esperar de mim nenhum gesto de afeto”, a fim de não perturbar seu momento criativo e seu intelecto superior; o nosso Millôr Fernandes apregoava o combate às facilidades ao artista (“Ou Van Gogh ou nada!”, dizia, preconizando toda sorte de empecilhos à vida do artista para que este só nascesse da dificuldade) e viveu nababescamente com todas as oportunidades que aproveitou. E mais outras centenas de exemplos de contradições entre o pensamento e a ação de alguns intelectuais que marcaram a história do pensamento por suas ideias, não exatamente por suas vidas e ações…
Não obstante, Nietzsche, que preconizava um modelo moral de Super-homem além do bem e do mal, uma espécie de ideal de “canalha heroico”, não conseguiu levar adiante seu projeto e endoideceu agarrado num jumento – ambos bonzinhos e mansos. Em suma, nem para o projeto de uma canalhice idealizada, o ser humano – e muito menos o gênio – consegue fugir da contradição entre o pensamento e a práxis.
Fôssemos medir o caráter com o gênio de quem pensa e escreve, não absolveríamos quase ninguém. Mas enfim: atire a primeira pedra quem nunca a atirou e acertou a própria testa.
Adrilles Jorge

Richard Wagner
1813 – 1883
Tristão e Isolda
A Cavalgada das Valquírias

Louis-Ferdinand Céline
1894 – 1961
Viagem ao Fim da Noite

 Martin Heidegger

1889 – 1976
O Ser e o Tempo
Cartas sobre o Humanismo

Karl Marx
1818 – 1883
O Capital

Friedrich Engels
1820 – 1895
Manifesto Comunista

Léon Tolstoi
1828 – 1910
Ana Karenina
Guerra e Paz

Friedrich Nietzsche
1844 – 1900
Além do Bem e do Mal

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