Nicolas Chamfort: as máximas de um suicida desastrado nos tempos da Revolução Francesa

por Homero Nunes
por Rodrigo Morais

Jacques-Louis David, A Morte de Marat, 1793

Vivendo na segunda metade do século XVIII, Sébastien-Roch Nicolas (1740-1794), mais conhecido simplesmente pelo pseudônimo de Chamfort, talvez tenha sido o último descendente dos chamados grandes moralistas franceses, como La Rochefoucauld e La Bruyère. Em que pese ter se dedicado à dramaturgia, se hoje o nome de Chamfort ainda é lembrado e citado isso se deve, com certeza, não às medíocres tragédias neoclássicas que escreveu, mas aos aforismos e epigramas que registrou em pilhas de cartões avulsos nos últimos anos de vida, publicados postumamente, em 1803, com o título Máximas e pensamentos, personagens e casos. Outro fator que contribuiu, e muito, para sua notoriedade, fazendo dele até objeto de estudo para o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, foi sua vida deveras atribulada, que culminaria num suicídio pungente e totalmente desastrado. Vale a pena, mesmo que de modo sucinto, narrá-lo aqui. No dia 10 de setembro de 1793, Chamfort trancou-se no quarto onde vivia, em Paris, pegou uma pistola, encostou o cano frio na própria têmpora e disparou. A bala atingiu seu olho direito e destruiu seu nariz, mas não o matou. Surpreendido de ainda estar vivo, o escritor apanhou uma navalha e cortou a garganta. Resistindo novamente, cortou o peito em “X”. Antes de perder os sentidos, ainda teve tempo de cortar outras veias, nos punhos e nas pernas. Mesmo assim, não espirou, pelo menos não imediatamente.
A poça de sangue que se alastrou por debaixo da porta chamou a atenção das pessoas do lado de fora, que vieram em seu socorro. Chamfort só veio a dar o suspiro derradeiro cerca de oito meses mais tarde, num hospital, em decorrência dos ferimentos. Tinha, então, 54 anos. Mas o que, afinal de contas, teria levado um homem tão inteligente e sagaz a atentar contra a própria vida? Entre outros motivos insondáveis, que só se pode especular, a aflição de Chamfort relacionava-se aos rumos que a Revolução Francesa havia tomado, devido à radicalização que se seguiu com a ascensão dos jacobinos ao poder.
De origem modesta, filho natural, como se dizia na época, de um padre, Chamfort conseguiu subir na rígida hierarquia social francesa à custa de muito esforço e talento. Em 1776, após a representação de uma de suas peças, Mustapha et Zéangir, no Palácio de Fontainebleau, teve a sorte de cair nas graças da rainha Maria Antonieta, que o presenteou com uma sinecura e uma vultosa pensão. Era tudo o que um arrivista palaciano como ele podia ambicionar. Contudo, homem de inteligência participativa (ou “anticontemplativa”) que era, não suportava o papel que a injusta sociedade de seu tempo, eminentemente estamental, lhe reservara, de ser uma espécie de bufão dos poderosos.

Com efeito, decorridos alguns anos, o último dos grandes moralistas franceses viria a recusar essas benesses pelas quais tanto lutou, entusiasmado com o advento da Revolução e seus princípios igualitários. Pena que a lua de mel com os eventos subsequentes a 1789 durou pouco: horrorizado com os excessos revolucionários, Chamfort passou a atacar pela imprensa os principais líderes da recém proclamada República da França, como Robespierre. Administrador da Biblioteca Nacional, acabou preso, denunciado por um subordinado que o acusava de ter difamado a memória de Marat, o incendiário jornalista jacobino que, pouco tempo antes, fora assassinado na banheira de casa. Ao sair da prisão, foi colocado sob vigilância, sendo, ainda por cima, obrigado a dar abrigo e alimentação ao guarda responsável. O cerceamento de sua liberdade, aliado à humilhação de se ver vigiado a todo instante, teriam motivado a resolução que tomou em dar cabo da vida. Nove anos depois de sua tragicômica morte, conforme se informou, aqueles cartões soltos, encontrados de modo esparso nas gavetas da casa de Chamfort, vieram a lume, editados em forma de livro, perpetuando seu prestígio, simbólico ou não, de homem livre, cujo espírito superior não se envergava aos donos do poder da ocasião, fossem eles nobres ou burgueses. Somente em 2007 as geniais frases de Chamfort seriam traduzidas e publicadas em português, num volume intitulado Chamfort – Máximas e Pensamentos, lançado pela José Olympio Editora. Seguem abaixo algumas pérolas recolhidas a esmo na mencionada publicação, uma pequena amostra para os leitores do Isso Compensa da inteligência “chamfortiana”.



“A sociedade é composta de duas grandes classes: os que têm mais jantares do que apetite, e aqueles que têm mais apetite do que jantares.”
“A falsa modéstia é a mais decente de todas as mentiras.”
“A grande infelicidade das paixões não reside nos sofrimentos que elas nos causam, mas nos erros, nas baixezas que elas nos fazem cometer e que degradam os homens. Sem esses inconvenientes, elas levariam vantagens demais sobre a fria razão, que não nos torna felizes. As paixões fazem o homem viver, a sabedoria o faz apenas durar.”
“A melhor filosofia, em relação ao mundo, consiste em aliar o sarcasmo da graça à indulgência do desprezo.”
“A mudança das modas é o imposto que a indústria do pobre cobra sobre a vaidade do rico.”
“É por meio do amor-próprio que o amor nos seduz. Como resistir a um sentimento que, aos nossos olhos, embeleza o que nós temos, devolve-nos o que perdemos e nos dá aquilo que não possuímos?”
“Às vezes nos dizem para que aceitemos ir à casa de uma ou outra mulher: Ela é muito amável; mas se eu não quero amá-la! Seria melhor dizer: Ela é muito amante, porque existem mais pessoas que querem ser amadas do que desejam elas mesmas amar.”
“Li em algum lugar que em matéria de política não havia nada mais nefasto para os povos do que os reinados excessivamente longos. Ouço falar que Deus é eterno: não é preciso dizer mais nada.”
“Nas coisas grandes, os homens se mostram da maneira que lhes convêm mostrar-se; nas coisas pequenas, mostram-se como eles são.”
“Viver é uma doença da qual o sono nos alivia de dezesseis em dezesseis horas. É um paliativo. A morte é o remédio.”
“A vida contemplativa é muitas vezes infeliz. É preciso agir mais, pensar menos, e não nos observar enquanto vivemos.”
“Na França, deixam sossegados os que ateiam fogo e perseguem os que soam o alarme.”
“Os pobres são os negros da Europa.”


Compensa:
Chamfort – Máximas e Pensamentos
Aos leitores mórbidos e/ou sádicos, que porventura se interessaram mais especificamente pelo agonizante suicídio de Chamfort do que pelo seu pensamento aforístico, indica-se a leitura do Dicionário de Suicidas Ilustres, escrito por J. Toledo (Ed. Record, 1999), de onde foram retiradas algumas das informações aqui expostas.









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