Néctar dos deuses: o papel social da cerveja

por Homero Nunes

IC Pub
por Luiz Gustavo Moura

“A cerveja é a prova viva de que Deus nos ama
 e nos quer ver felizes.”
Benjamin Franklin


Em qualquer lugar do mundo onde as pessoas estejam se reunindo, conversando, rindo e se divertindo, é bem provável que haja uma cerveja. A cerveja tem um papel de bebida social desde os primórdios da humanidade, seja por simples saciedade da sede até mesmo passando por rituais religiosos. Descrições sumérias datadas de 3000 a.C. mostram duas pessoas bebendo cerveja em canudinhos em um mesmo recipiente partilhado. Desde antes dessa época já era possível individualizar o consumo de bebidas em recipientes separados, mas isso demonstra o ritual de se partilhar a bebida de forma única, consumindo o mesmo líquido, o que não é possível se fazer com a comida. Essa situação denota hospitalidade e amizade, algo similar ao brinde que fazemos nos dias de hoje. Sinalizava também que se podia confiar na pessoa que estava oferecendo a bebida e que esta não estaria envenenada ou inadequada para o consumo.
 
Antiga é a percepção do homem de que a cerveja possuía propriedades sobrenaturais. A capacidade de se embriagar e ter o estado de consciência alterado era tida pelos bebedores do período neolítico como algo mágico. A conclusão de que a cerveja era um presente dos deuses era algo óbvio. Há muitos mitos em diversas culturas que explicam e representam a criação divina da cerveja e a transferência desse ensinamento ao homem. Então, nada mais justo e lógico do que utilizar a cerveja como oferenda aos deuses em cerimônias religiosas, funerais e rituais de fertilidade na agricultura. Essas situações são referenciadas nas culturas egípcia e suméria e, provavelmente, remontem a um período ainda anterior a essas culturas. Os incas ofereciam sua cerveja — conhecida como chicha — ao sol nascente numa copa dourada e derramavam-na no solo ou cuspiam de volta o primeiro gole como forma de oferenda aos deuses da Terra. Os astecas ofereciam sua pulque a Mayahuel, a deusa de fertilidade. O ato de levantar um copo para saudar, felicitar alguém ou desejar uma boa viagem é um resquício da antiga ideia de que o álcool tem o poder de invocar forças sobrenaturais.
No próximo post, as 3 grandes escolas cervejeiras e a nova escola americana. Prost!
“Um pouco de cerveja é um prato para um rei.”
Willian Shakespeare (A Winter’s Tale)
Referência:
STANDAGE, Tom. História do Mundo em 6 Copos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

Mais publicações sobre cerveja na coluna Bric-a-Brac
*Luiz Gustavo Moura (LG) é produtor de áudio, músico, cervejeiro pseudo-entendido e jornalista fracassado. Saúde!


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