Napoleão: o Senhor da Guerra e o Banana do Lar

por Homero Nunes
por Rodrigo Morais
“A mulher gosta de admirar. Até a esposa ou a amante de um mata-mosquito precisa achar que ele é, vagamente, um Napoleão. É nessa ilusão que ela vive e sobrevive. Quando a mulher percebe a burrice do homem, isso lhe causa um trauma.”
Nelson Rodrigues
Muito já se falou, e com certeza muito ainda se falará, sobre as conturbadas relações envolvendo genros e sogras. Dicró, grande sambista carioca, fez carreira satirizando tais relações nas letras de suas canções. Todavia, para além do senso comum, muito mais belicosas costumam ser as relações entre noras e sogras, quase sempre permeadas por um expediente típico do arsenal feminino: a intriga. Um bom exemplo dessa “guerra surda” – a conflagrar, metaforicamente falando, o “berço” e a “cama” – pode ser encontrado na biografia de Napoleão Bonaparte, homem tido e havido como um dos mais importantes e poderosos da história da humanidade. Em que pese ter sido Napoleão um dos maiores estrategistas militares de todos os tempos, capaz de impor derrotas humilhantes a seus inimigos, o famoso general corso nunca conseguiu apaziguar a convivência forçada existente entre sua mãe, Letícia Ramolino, e sua primeira esposa, Josefina de Beauharnais. Seis anos mais velha que Napoleão, Josefina era considerada pela sogra uma mulher da vida mundana, ou seja, uma cortesã totalmente inadequada para desposar seu filho prodígio. Não bastasse semelhante censura moral, Josefina jamais logrou dar a Napoleão um filho, motivo pelo qual, após tornar-se imperador – iniciando, pois, uma dinastia – ele ter sido praticamente obrigado a se separar dela. Só para se ter uma ideia, as animosidades de uma para com a outra chegaram ao cúmulo de Letícia simplesmente se recusar em comparecer à cerimônia de coroação do filho, ocorrida em 1804 na Catedral de Notre Dame, só para não ter o desgosto de ver a nora glorificada como imperatriz da França. 

Jacques-Louis David. Sagração do Imperador Napoleão I e a coroação da Imperatriz Josefina, 1806, óleo sobre tela, 523 x 715 cm. Paris, Louvre.
O mais interessante dessa história a respeito da sagração de Napoleão, imortalizada em uma famosa tela de Jacques-Louis David, é que, mesmo sem ter ido à cerimônia, Letícia não deixou de ser retratada no quadro, conforme demonstra em detalhe a imagem reproduzida abaixo. E, o que é pior, ela foi retratada, sentada no camarote mais próximo ao altar, sorrindo e com ar de júbilo! Isso aconteceu porque Napoleão obrigou que Jacques-Louis David, seu amigo pessoal, assim o fizesse. Ele não queria, segundo consta, que sua mãe entrasse para a história como uma mulher mesquinha. Mal sabia Letícia que a coroação de Josefina viria sepultar seu casamento com Napoleão – que, para ter um filho, contraiu matrimônio com uma princesa austríaca chamada Maria Luísa. Paul Johnson, historiador inglês, em seu ótimo livro sobre o “pequeno cabo” (Napoleão, ed. Objetiva, 210 págs.), assim descreveu esse evento tão badalado, acrescentando outros detalhes curiosos: 

“A decoração era dourada e o símbolo era uma abelha de ouro. O papa esteve presente, tendo sido obrigado a esperar durante quatro horas no frio glacial da catedral para, em seguida, ver negado seu papel específico na ocasião, pois Bonaparte tomou as coroas de sobre o altar e colocou-as em sua própria cabeça e na de Josefina. Há controvérsias se foi um gesto espontâneo ou ensaiado, e se havia sido combinado com o papa. A cerimônia foi empanada por discussões entre Josefina e as irmãs de Bonaparte, que a odiavam e se sentiram ofendidas ao receber ordem de carregar a cauda de seu vestido. Josefina explodiu em lágrimas quando a coroa foi colocada em sua cabeça e mais tarde queixou-se do desconforto de ser obrigada a conservá-la durante a longa festa de coroação.”

Como se vê, parece que as rédeas do imperador também não conseguiram estabelecer uma coexistência harmoniosa entre sua mulher e suas irmãs. O problema, ao que tudo indica, estava no fato de Napoleão ser completamente apaixonado pela esposa, sentimento que o tornava suscetível aos caprichos dela. Aos olhos das irmãs e, principalmente, da mãe, um defeito imperdoável. Ainda mais para um homem que procurava transparecer uma imagem pública tão altiva e altissonante, o que, em certo sentido, parece desmentir a máxima de Nelson Rodrigues utilizada acima como epígrafe, segundo a qual Napoleão seria o protótipo do super-homem. Apenas em certo sentido, pois, em outro, talvez ele reforce de modo inconteste a argumentação do dramaturgo pernambucano (qual mulher não gostaria de ter a seu lado um homem rico, poderoso e, ainda por cima, submisso a ela!!). Com a palavra, as leitoras do Isso Compensa.  

por Rodrigo Morais



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