Mídia: o neo-estado regulador da privacidade de consumo

por Homero Nunes
Por Adrilles Jorge

O paradoxo esquizofrênico que define nossa era é o falso apelo desesperado à privacidade. Vídeos íntimos de anônimos que desejam se tornar celebridades, subcelebridades que produzem vídeos íntimos para ganhar notoriedade e depois condenam a divulgação de suas intimidades ao mesmo tempo que  saboreiam as benesses de sua divulgação; celebridades que disseminam fofocas sobre mortos, vendem suas intimidades e abusos pessoais e depois se tornam abusadores da razão do público; e um público ávido por se tornar célebre às custas de qualquer intimidade compartilhada em alguma rede social. O fato é: intimidade é coisa do passado, um preciosismo pré-histórico, uma antiguidade decorativa do século XIX. Não é de todo mal: se todos soubessem da vida íntima de todos, todos seriam menos hipócritas pelo mútuo reconhecimento das próprias falhas ou esquisitices, que, tornadas públicas, cairiam no comum da aceitação. O problema é que esta peça de museu, a tal intimidade, é agora fabricada e negociada como valor de troca. O “devassado” finge que se condói da perda da privacidade e ganha os lucros midiáticos pela mesma perda. E o público finge que se choca ao mesmo tempo que finge que condena, subvertendo os desvios da própria personalidade, em catarse autocontemplativa. É  o samba do crioulo doido da esquizofrenia pop, em que usos, abusos, agressões, torpezas sexuais e afetivas são usados como moeda de compra que não compra nada a não ser o vazio das personalidades à mostra na mídia, que por sua vez se alimenta do vácuo que produz. A singularidade do talento foi substituída pelo reflexo da mediocridade comungada. Os heróis de antigamente eram aqueles que davam algum tipo de exceção, de exemplo moral, que se distingam do comum das ninharias humanas. Os heróis de hoje são os que carregam o peso da mútua aceitação tácita da ninharia, do ceticismo, da celebração do vácuo, da descrença e do reflexo dos aspectos do que há de mais vulgar e comezinho na condição humana. 
Quando George Orwell prenunciou uma espécie de estado regulador da privacidade  personificado em seu “Big Brother” no romance “1984”, mal sabia ele que sua metáfora haveria de se concretizar enviesadamente: o estado que tudo controla é hoje a mídia que dita o espetáculo das aberrações circenses que vendem sua privacidade fabricada ao gosto e deleite das pulsões humanas mais obscuras e – até ontem – inconfessáveis. Aldous Huxley também previu, em seu “Admirável Mundo Novo”, uma sociedade cujos valores morais eram definidos pelo estado, um mundo em que qualquer dúvida ou dilema pessoal era sanado com uma droga (“Soma”) que dissipava qualquer tipo de raciocínio crítico do público usuário. Pois bem: contemporaneamente, leia-se “mídia” para a metáfora renovadora de estado e também da tal droga.
O espetáculo humano não atenuou sua ferocidade historicamente, apenas mudou de forma: se na Roma antiga, o público se deliciava com a degladiação de cristãos e leões, hoje nos deleitamos com o embate dos aspectos mais torpes da natureza humana mesma ao vivo e online. O estado midiático observa não só o caráter de seus ícones de programas televisivos, mas observa (e também se observa) e escarafuncha também o caráter dos espectadores e produtores que se reconhecem e que (se) consomem por estas “pessoas-produtos” e são intimamente consumidos pelos seus instintos mais inconfessáveis – que se confessam espontaneamente, implícita ou explicitamente, conforme o interesse do consumidor. O confessionário não é mais privado, é público. A Igreja midiática é pública e devassada. E o pecado é sempre recompensado neste admirável e repaginado mundo não tão novo assim, mas subrepticiamente atemporal.
Compensa:

1984
George Orwell

Admirável Mundo Novo
Aldous Huxley


O filme adaptado de “1984”, lançado em 1984, com John Hurt e Richard Burton, compensa:

O filme “Admirável Mundo Novo” está longe de ser uma adaptação medíocre da obra de Huxley. Não compensa. Talvez, com muito esforço e boa vontade, o filme “Gatacca – Experiência Genética”, de 1997, também inspirado no livro de Huxley, possa ser lembrado como um vislumbre cinematográfico de “Admirável Mundo Novo”. Curioso, até interessante, com ressalvas.




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