H.L. Mencken e o retrato de um alcoólico mundo ideal

por Homero Nunes
Jornalista, crítico, iconoclasta, mau humorado por excelência, irônico e beberrão, H. L. Mencken (1880 – 1956) ficou famoso nas primeiras décadas do século XX por seu estilo ácido, opinativo, que corroía as estruturas do American Way. Borrifava acidez para todos os lados, ninguém escapava, mas seu alvo preferencial era mesmo o americano médio, chamado sempre de idiota, besta, pobre coitado burro e sem inteligência. Com ironia e sarcasmo, desenvolvia textos floreados e argumentos malucos sobre Deus e o mundo. No artigo selecionado abaixo, escrito em 1924, em plena Lei Seca americana, Mencken propõe um “mundo ideal”, no qual a ideia principal era manter a humanidade “ligeiramente alta”, em doses alcoólicas para aplacar os ímpetos e melhorar os outros. Cheers!

RETRATO DE UM MUNDO IDEAL
por H.L. Mencken

“Que o álcool numa solução diluída em água, quando tomado pelo organismo humano, atua como depressor e não como estimulante, é hoje um clichê tão batido que até os fisiólogos mais avançados estão começando a tomar conhecimento dele. O leigo inteligente não recorre à garrafa quando tem compromissos importantes a resolver, sejam intelectuais ou manuais; ele deixa a primeira dose para depois do trabalho feito, quando deseja relaxar a tensão e reduzir a pressão de seu mau humor. O álcool, por assim dizer, nos desenreda. Ele levanta o toldo da sensação e nos torna menos sensíveis aos estímulos externos e, particularmente, àqueles que nos são desagradáveis. Ao pôr um freio em todas as qualidades que nos permitem tocar a vida e brilhar diante dos colegas – por exemplo, a combatividade, a agudeza, a diligência, a ambição –, o álcool liberta as qualidades que nos enternecem e fazem com que as pessoas gostem de nós: a afabilidade, a tolerância, a generosidade, o humor, a simpatia. Um homem com dois ou três drinques a bordo não será capaz de amputar a perna de alguém, pilotar um avião ou reger a missa em si menor de Bach, mas será imensamente mais competente para dar uma festa, admirar uma mulher bonita ou ouvir a missa em si menor de Bach. As coisas mais difíceis e úteis do mundo, como extrair dentes ou descascar batatas, ficam melhores quando feitas por pessoas tão sóbrias quanto os condenados às vésperas da execução. Mas as coisas mais gostosas, inúteis e divertidas deveriam ficar a cargo daqueles já devidamente lubrificados. O Pithecanthropus erectusera abstêmio, mas os anjos sempre souberam o que lhes convinha às cinco da tarde.
Tudo isto é tão óbvio que me espanto ao ver que nenhum utópico, até hoje, se propôs a abolir todas as lamentações do mundo pelo simples artifício de manter toda a humanidade ligeiramente alta. Note bem, eu não disse bêbada; disse ligeiramente alta – e peço desculpas por não saber como descrever este estado numa frase menos indecorosa. O homem ligeiramente calibrado pelo álcool é capaz de pôr suas melhores qualidades para fora. Ele não é apenas imensamente mais amável do que o indivíduo que vive a seco; é também imensamente mais decente. Reage a todas as situações de maneira expansiva, generosa e humana. Torna-se mais liberal, tolerante e agradável. É melhor cidadão, marido, pai e amigo. Às iniciativas que tornam a vida humana insegura e desconfortável nunca são tomadas por este homem: ele não declara guerras, não rouba nem oprime ninguém. Todas as grandes vilanias na História foram perpetradas por homens sóbrios e, principalmente, por abstêmios. Mas todas as coisas belas, do Cântico dos Cânticos à tartaruga à Maryland, das nove sinfonias de Beethoven ao martíni seco, foram concebidas por homens que, na hora certa, trocavam a água da bica por algo mais colorido e com outros ingredientes que não apenas hidrogênio e oxigênio.
Estou ciente, é claro, que manter toda a espécie humana neste paraíso, ano após ano, apresentaria formidáveis dificuldades técnicas. Seria difícil calcular a dosagem diária de cada indivíduo conforme exatamente suas necessidades particulares, e fazê-lo tomá-la precisamente na hora certa. Por um lado, haveria o constante perigo de que grandes minorias tornassem ocasionalmente sóbrias e, com isso, começassem guerras, disputas teológicas, reformas morais e outros aborrecimentos. Por outro lado, haveria o perigo de que outras minorias fossem levadas a uma real intoxicação e começassem a nos amolar com suas choraminguices xexelentas. Mas tais obstáculos técnicos não são, de forma alguma, insuperáveis. Talvez pudessem ser resolvidos abandonando-se a ideia da administração do álcool per ora e distribuindo-o mais democraticamente, apenas impregnando o ar com ele. Deixo a sugestão e passo adiante, porque tais problemas são para homens com prática em terapêutica, em governo e em eficiência nos negócios. Estes homens existem e suas iniciativas quase sempre mostram um alto grau de competência, mas, por passarem dia e noite sóbrios, devotam grande parte do tempo a nos atormentar. Meio chumbados, eles seriam dez vezes mais criativos e, talvez, pelo menos metade tão eficientes do que já são. Milhares deles, aliviados de seus atuais deveres antissociais, tornariam-se ociosos, logo ansiosos por uma ocupação. Confio neles para resolver este pequeno problema. Se não forem bem sucedidos completamente, pelo menos o serão pela metade.
Pode-se objetar que mesmo pequenas doses de álcool, se uma dose já estiver nos calcanhares da dose predecessora antes que os efeitos desta tenham se desanuviado, poderiam ter um efeito deletério sobre a saúde física da espécie – que a taxa de mortalidade aumentaria e que categorias inteiras de seres humanos seriam exterminadas. A resposta é a de que não estou propondo aqui aumentar a longevidade de ninguém, mas aumentar os seus prazeres. Suponhamos que a duração da vida seja reduzida em 20%. Minha resposta é a de que suas delícias crescerão em pelo menos 100%. Confundidos pelos estatísticos, caímos frequentemente no erro de dar importância a meros números. Dizer que A viverá até os oitenta anos e que B não passará dos quarenta não significa que A seja mais invejável do que B. Na realidade, A pode estar vivendo todos esses oitenta anos em buracos como Kansas ou Arkansas, onde não há nada para comer exceto milho e carne de porco, e nada para beber, exceto a água poluída do rio, enquanto B pode estar investindo pelo menos uns vinte anos na Côte d’Azur, wie Gott im Frankreich*. E minha convicção de que o mundo que estou pintando – presumindo-se que a duração média da vida humana será reduzida até em 50% – seria infinitamente mais feliz e charmoso do que o que vivemos hoje – e que nenhum ser humano inteligente, tendo provado sua paz e alegria, voltaria voluntariamente para as rudes brutalidades e cretinices que nos assolam e que nós, idiotamente, lutamos para preservar. Se os americanos inteligentes, nesses tempos deprimentes, ainda se agarram à vida e tentam esticá-la o mais que podem, não o fazem por lógica, mas por instinto. O homem sabe muito bem que dez anos num país realmente civilizado e feliz são infinitamente melhores do que toda uma época geológica sob as desgraças que somos obrigados a encarar e suportar no dia a dia.
Além disso, não há necessidade de admitir que a alcoolização moderada de toda a espécie humana iria reduzir materialmente a duração da vida. Muitos de nós já somos moderadamente alcoolizados e conseguimos sobreviver tanto quanto os abstêmios hidrófobos. Quanto a estes, alguém objetaria que o ar carregado de álcool lhes provocasse delirium tremensou que os esterilizasse ou exterminasse? A vantagem para a espécie em geral seria óbvia e incalculável. Todas as piores tensões – que agora não apenas persistem, mas parecem prosperar – seriam eliminadas em poucas gerações, o que permitiria ao homem médio trocar os sermões de seu pastor batista por Shakespeare, Mozart ou Goethe. Seria preciso uma eternidade, é claro, para tudo ficar perfeito, mas haveria progresso a cada geração, progresso gradual e seguro. Hoje, como deve parecer claro, não fazemos progresso nenhum; na verdade, estamos andando para trás. Que o homem civilizado médio de hoje é inferior ao homem civilizado médio de duas ou três gerações atrás é tão claro que dispensa explicações. Ele tem menos iniciativa e coragem; é menos criativo e heterogêneo; está mais para um coelho do que para um leão.
Duras repressões tornaram-no o que ele é. Bem, ninguém com dois ou três drinques no fígado é um tirano. Poderá parecer tolo, mas não cruel. Talvez fique um pouco barulhento, mas será também tolerante, generoso e educado. Minha proposta restauraria o cristianismo no mundo. Salvaria a humanidade dos moralistas, dos pedantes e dos ferrabrases.”
H.L. Mencken, 1924
*leben wie Gott in Frankreich, do alemão, “viver como Deus na França”

Fragmento d’O Livro dos Insultos:
MENCKEN, H. L.. O Livro dos Insultos. Seleção, tradução e prefácio de Ruy Castro. São Paulo: Cia das Letras, 1988.



Portrait of an Ideal World

Publicado originalmente em fevereiro de 1924, na segunda edição de The American Mercury, a revista editada por H.L. Mencken e George Jean Nathan, em Nova York.









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