Eva, a culpada por tudo

por Homero Nunes

por Homero Nunes


Paraíso, aprox. 6 mil anos atrás.
Poderia ter ficado barato, apenas uma costela ao Adão e uma insignificante dose de maldade de Deus, mas ela tinha que estragar tudo. O Poderoso, vendo Adão triste e solitário no Paraíso, resolveu dar-lhe uma companheira, a bela e delicada Eva. Peladões correndo os campos Elíseos (Champs-Élysées, para não perder a elegância, chic), colhendo flores ao sol da manhã, sem necessidades, sem televisão ou impostos no contracheque, felizes… ela ainda achava pouco. Aí o grande barbudo jogando dados, criou também uma árvore proibida – do fruto proibido do conhecimento, reluzentes e cheirosas maçãs vermelhas que faziam mal para a saúde (o fumo da época) – e um bicho safado de uma cobra ardilosa, manipuladora, a semente do que um dia seria o mal encarnado em figuras como o Rasputin, o Goebbels, o Zé Dirceu e a dona Adelina ali da esquina. Eva cresceu os olhos, gostou da cobra, gostou mesmo da cobra, ideias pipocaram e convenceu o Adão a colher-lhe o fruto. Ele salivou e comeu a maçã e, claro, a Eva. Veio um anjo furioso para servir o choro da dose de maldade e acabar com a festa. Tudo que é bom será pecado, a vida deverá ser cheia de missas e rezas que não servem para nada, muito chata, e o juízo final nos espera. Talvez o inferno. Expulso do Éden, por culpa da Eva, Adão recebeu o castigo do trabalho – “ganharás o pão com o suor do teu rosto” – e da pobreza, porque rico que trabalha é bobo ou descompensado, sado-masô capitalista. Eva recebeu o ônus das dores do parto. Depois que inventaram a anestesia, as mulheres foram ainda mais obrigadas ao trabalho, jornada dupla, para compensar. A pobre, desde então, carrega a culpa por você ter que trabalhar todos os dias, ou pior, por eu ter que trabalhar todos os dias da vidinha, exceto o domingo que a gente guarda pro poderoso jogar os dados. E o sábado do Black Sabbath, sob os sussurros da ardilosa, no cheiro da maçã.

Imagem: o momento que a Eva, em posição, convence o Adão a colher o seu fruto e, na sequência, a expulsão do Paraíso. Por Michelangelo, na Capela Sistina, séc. XVI.
A cobra do Michelangelo também é mulher. Mulher com cobra. 

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