Eram os deuses cervejeiros?

por Homero Nunes

IC Pub,
por Luiz Gustavo Moura

“Eu recomendo… pão, carne, vegetais e cerveja.”
Sófocles, para uma dieta moderada

O churrasco no fim de semana, um encontro com os amigos, o tão esperado happy hour… agora imagine estas situações sem cerveja, a bebida preferida dos brasileiros. Chego até a questionar o que seria da humanidade sem a cerveja? Esta frase pode soar um pouco pretensiosa, mas pense que a sede é mais mortal que a fome e a cerveja ocupa um lugar de importância na sobrevivência humana. Em uma época quando não havia tratamento de água, beber cerveja era mais seguro do que beber água.
“Salta cerveja estupidamente gelada prum batalhão…
e vamos botar água no feijão.”
Chico Buarque de Holanda, Feijoada Completa

Isso nos remete a um passado distante, lá pelos idos de 10.000 a.C., quando o homem passou a coletar e armazenar grãos de cereais selvagens no Crescente Fértil (região compreendida entre Egito, Turquia, Irã e Iraque). Esses grãos eram alimentos pouco saborosos e desinteressantes enquanto crus, mas eram atrativos quando esmagados e mergulhados em água. Inicialmente eram ingredientes de preparação de um tipo de mingau e mais tarde, por acidente lembre-se de que era difícil estocar os grãos em locais completamente impermeáveis , descobriu-se que esses grãos embebidos em água por algum tempo brotavam com gosto doce. São os primórdios de produção dos grãos maltados. Como haviam poucas fontes de açúcar disponíveis, esses grãos maltados passaram a ser valorizados, estimulando as técnicas de preparação de malte em que o grão era lavado ou enxaguado e depois seco. A segunda descoberta também veio por acaso: o mingau feito com grãos maltados, quando deixado alguns dias em repouso, passava por uma misteriosa transformação e ficava efervescente e embriagante. O mingau virava cerveja.
Depois dessa descoberta crucial, a qualidade da cerveja foi sendo melhorada por tentativa e erro. Quanto maior a quantidade de grãos maltados e maior o tempo de repouso, mais forte será a cerveja. Descobriu-se que o recipiente usado em preparos passados também influenciava a cerveja. Há inclusive registros históricos egípcios e mesopotâmicos que mostram que os produtores de cerveja sempre carregavam consigo suas “tigelas de mistura”, “recipientes que fazem boas cervejas”, uma vez que estes se encontravam impregnados de culturas de leveduras. A partir de então, não havia mais dependência da levedura selvagem, inconstante em qualidade. Os mestres cervejeiros ancestrais misturavam frutas silvestres, mel e temperos para alterar o sabor da cerveja de diversas maneiras, assim foram criando bebidas para diversas ocasiões. Registros egípcios mencionam pelo menos 17 tipos de cervejas com referências poéticas como “a boa e bela”, “a celestial”, “a plena” dentre outros tipificadores como cerveja escura, cerveja fresca e cerveja prensada.
O papel da cerveja como bebida social é muito importante desde os primórdios, tanto que as tradições culturais associadas à cerveja perduram até hoje, mas isso é assunto para um outro post. Prost!

Imagens:
1) Mercenário Sírio tomando cerveja ao lado de sua esposa egípcia e seu filho – Pintura datada da 18ª dinastia.
2) Mapa do Crescente Fértil.
3) Monumento Blau, peça suméria de 4000a.C., mostra cerveja sendo oferecida à deusa Nin-Harra.

Referência:
STANDAGE, Tom. História do Mundo em 6 Copos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

Compensa:
Mais publicações sobre cerveja na coluna Bric-a-brac
*Luiz Gustavo Moura (LG) é produtor de áudio, músico, cervejeiro pseudo-entendido e jornalista fracassado. Cheers!


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