Didática perdida da (des)função artísitica

por Homero Nunes

por Adrilles Jorge


Toda decadência estética precede uma decadência moral. Onde não há arte de primeira grandeza, há inexoravelmente humanidade de segunda. Observa-se hoje, como nunca antes, um amplo leque de entretenimento que busca narcotizar o público pelo simples prazer da fuga. E toda fuga é o caminho oposto da função catártica da arte, que é refletir ao espectador sua imagem não exatamente complacente, mas subversiva, a fim de que neste jogo de espelhamento, alguma coisa se atrapalhe para se encaixar no desencaixe da construção da contestação de valores pré-estabelecidos. O entretenimento de massa – que não deixa espaço para a produção de algo singular e não massificado mercadologicamente – reflete e satisfaz a cada vez mais intensa e celebrada preguiça típica do espectador padrão de consumir algo que não consuma seus miolos além de uma frugal experiência de prazer anódino. Daí nasce o cidadão amorfo-consumidor e consumido, habitante de um parque de diversões, que estabelece relações frugais com uma realidade complexa que o esmaga ou o incita a lançar mão do próximo como artefato ou o promove a chefe de estado, a depender das circunstâncias. 


Arte, ao contrário do que Platão dizia, é um sucedâneo esquisito da filosofia, do pensamento, um parto da confusão dos limites da lógica das aparências, e hoje o entretenimento tomou o lugar da arte como aparência estratificada. Explica-se: Sócrates incitava os cidadãos a perscrutarem em si a origem e a contradição de seus conceitos pré-estabelecidos, de seus clichês, buscando algum traço de busca de uma verdade concreta. Hoje, brinca-se niilistamente com os clichês concretos através de entretenimento barato, em uma versão reduzida e hedonista do que seja o niilismo mesmo. Antes de Sócrates, mais modestos, os sofistas  defendiam as aparências mais adequadas como meio de estabelecer uma verdade viável. A verdade concreta lhes parecia uma veleidade arrogante de seu portador. Górgias, retórico e sofista clássico, afirmava que nada existia de fato e que a linguagem humana era a criadora da realidade visível e tangível, de onde podemos concluir que uma eventual mentira bem-intencionada (uma ficção de primeira grandeza, por exemplo) poderia ter um valor estético moral maior que um fato desadornado de uma interpretação. A arte não deixa de ser uma retórica que se quer invenção e ao mesmo tempo espelho da realidade e sua subversão mesma.


Pensemos, pois, socrática ou gorgiamente: existe algum apelo atual de busca pela verdade ou de uma criação estética válida da mesma tanto no que diz respeito à realidade quanto à invenção artística contemporânea ou voltamos, cada vez mais, à infância lúdica, em que brincávamos com barro e sabão? A infância, ao contrário do que preconiza o clichê clássico da ingenuidade, é um estado animalesco e bestial. Todo infante é um pequeno perverso polimorfo, como dizia Freud, toda criança é um ser sequioso da satisfação de seu desejo a qualquer custo; um ser egocêntrico, desprovido do sentimento civilizatório da culpa. Sem arte de primeira grandeza que constitua a base de uma alta cultura  não existe o incentivo a uma estrutura sólida que embale um comportamento civilizado, adulto, por assim dizer, que justifique uma brincadeira mais salutar de invenção e reordenação moral da realidade, da sociedade e do indivíduo mesmo. 

A tal alta cultura  está quase morta e estrebucha entre alguns poucos que ainda são acusados de pedantes; a arte popular mesma perdeu sua raiz e transforma-se cada vez mais em entretenimento midiático produzido em série, sem nada reter, absorver e oferece às pessoas que não seja a satisfação de suas pulsões e instintos mais primários. Não que  não houvesse sempre alta incidência de produção e consumo de lixo cultural, mas o filtro que as novas tecnologias e estratégias mercadológicas impõem ao consumidor das últimas décadas esmaga qualquer tipo de lugar ou mesmo de fomento para qualquer tentativa de uma arte que se quer ou mesmo se pretenda digna de sua maioridade. Arte pode ser interpretada como uma exceção à cultura, como dizia Godard, em algo que transmuta a cultura em algo mais do que ela mesma às vezes possa absorver, e a absorção fácil e rápida contemporânea não se coaduna a esta equação. Não havendo uma didática artística, não há apreensão moral. Bernard Shaw dizia que arte não é outra coisa senão didática. Com algum adorno estético para entretenimento, completo eu. Hoje só sobra abundantemente o entretenimento, sem o caroço da coisa, que é exatamente sua razão de ser. Meros entretidos em entretenimento vazio não pensam sobre a morte, sobre a dor, sobre a injustiça em seus mais variados níveis, sobre si mesmos. Meros entretidos tentam basicamente ser felizes, não importando a que custo, a custo de que ou de quem, promovendo um comportamento previsível, cínico e ingenuamente, passivamente perverso e egoísta. A busca de felicidade desacompanhada de uma função humana e social é uma espécie de fascismo do indivíduo, do ego. Se antes, nos matávamos por apego a verdades absolutas, hoje nos espicaçamos e nos anulamos lentamente por relativismo blasé, ignorância e vulgaridade calculadas.
Adrilles Jorge


Imagens:
Histoire(s) du Cinéma
Jean-Luc Godard

Compensa:
Apologia de Sócrates_ Platão
A República_ Platão
Encômio de Helena_ Górgias
Literatura e Arte_ Bernard Shaw
Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade_ Freud


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