Deus: uma breve biografia

por Homero Nunes

Por Adrilles Jorge


Deus dispensa apresentações, mas não custa nada sintetizá-lo historicamente, ainda que pressuponha-se que o dito divino seja criador do tempo: mais célebre personagem criado não à imagem e semelhança do homem, mas à imagem e aperfeiçoamento absoluto dos que o criaram, a tal humanidade, como tapa-buraco de tudo que não entendemos sobre a existência e que se revela pela nossa imaginação, talvez (sim, Deus é a dúvida concreta dos que o embalam, ainda que seus devotos o neguem, alimentando ainda mais sua presença). Criação ilusória segundo muitos, realidade absoluta, segundo outros tantos, Deus não passa indiferente pelos que o adoram e muito menos pelos que o renegam, criando igrejas atemporais de louvação e contestação, se estabelecendo como o principal personagem da história da literatura e da filosofia, da arte e da história humana.
Começou multifacetado, nos politeísmos como resposta mitológica às tais perguntas metafísicas que não se respondem (de onde vim, que faço aqui, pra onde vou, patati patatá). Depois, com a organização da bíblia judaico-cristã, tornou-se um só, espalhando suas tangentes nos santos católicos que remetem às múltiplas personas dos deuses da mitologia grega. Mais severo e azedo no antigo testamento, com o advento do Cristo, o Deus feito homem, Deus tornou-se mais adocicado e complacente com as falhas humanas, ainda que um tantinho sádico em sua misericórdia divina, deixando seu filho ser crucificado em seu nome, por bem da humanidade. Os tais desígnios insondáveis de Deus que se entendem pela aceitação tácita da fé, né?
Sua existência é validada pelo pressuposto da ordenação moral e física do universo, como lá disse São Tomás de Aquino. “Mas que ordenação moral é esta, uma vez que o mal existe?”perguntou Hume. Elementar, meu caro David, respondia séculos antes Santo Agostinho: Deus teria feito o bem a partir do mal, como a luz que brota da treva. Fosse só sol a vida inteira, morreríamos de insolação, fosse só felicidade e virtude, nos suicidaríamos todos de tédio, como alguns suecos. Deus, o criador e seus criadores, sabiam das coisas, embora as coisas ficassem meio feias para os que contestassem o valor do Criador-criatura, acabando na fogueira na Idade Média por desdizerem os ditos do divino, representado pela Igreja, que detinha o monopólio de sua palavra revelada. Sim, Deus também foi devidamente manipulado para fins que não exatamente a defesa do criacionismo e já que Deus é ordenamento moral e não falando pessoalmente por esta ordem, a ordem foi passada a alguns eleitos que se elegeram porta-vozes de Deus (ainda é um pouquinho assim até hoje).
Alguns bateram o pé e se desgarraram do rebanho mas não exatamente de Deus, como Lutero, que protestou dizendo que a bíblia tinha livre interpretação, interpretando-a ele mesmo a seu modo e fundando outra escola de interpretação fechada de Deus: o protestantismo. Outros, como o filósofo Espinoza, destrinchou Deus desta imagem humana, antropomorfizada, dizendo que “Deus é natureza”, revelando-se na harmonia cósmica e que Deus não representava regra alguma. “Parem de rezar e vão rosetar e desfrutar a existência”, disse Baruch pela voz divina, sendo excomungado pela Igreja. Outro filósofo, Nietzsche, enterrou o Deus como ordenador moral e quis criar uma moral além do bem e do mal. “Deus está morto”, disse Nietzsche, que morreu endoidecido agarrado num jumento pouco depois.
Recusando-se, enfim (e ad aeternum, pelo visto) a morrer no imaginário, na fé e na cultura humana, Deus, grosso modo, permanece vivo nos que nele creem como um manual de regras, os teístas, nos deístas que nele enxergam a tal consciência cósmica e moral sem nenhum postulado ou dogma,  nos que a ele negam – os ateus, e nos que nele embatucam na dúvida, os agnósticos.
Negando, duvidando ou afirmando, todos celebram Deus à sua maneira. Cada uma destas vertentes fez sua literatura divina, por assim dizer. Enquanto a filosofia repousa no vai-e-vém da afirmação e negação e dúvida, mais recentemente a ciência tem torcido o nariz para as questões divinas. Um ou outro, como Einstein, diz ter uma consciência religiosa, afirmando crer no Deus de Espizona, um Deus desantropomorfizado, que dá de ombros para o destino humano. Mas é preciso lembrar que curiosamente foi a Igreja que promoveu algumas das mais valiosas descobertas científicas. Foi um padre – George Lemaitre – por exemplo, que criou a teoria do “Big Bang”, a da explosão em contínua expansão que teria criado o universo. Espertamente, o papa Pio XII arrematou: “se no princípio era o caos, a teoria confirma a fé católica na existência de Deus como criador”.
Mas de fato, depois que a Igreja mandou Galileu calar a boca por ter avisado que a terra não era o centro do universo e que moramos numa distante periferia de Deus ou do que lá seja o centro das coisas, a ciência tem se desgarrado de deidades feéricas e afins. Outro cientista mais contemporâneo, Richard Dawkins, dá voz à Igreja da negação divina, reiterando que Adão e Eva, meu filho, só se fossem macacos darwinianos e que Deus é um delírio que só provocou desgraça nas relações humanas.
Nem tanto, Ricky. A graça divina está justamente neste paradoxo mitológico de sua revelação enviesada no inconsciente coletivo. Sem Deus (ou sua Criação), oitenta por cento da filosofia e da literatura, da arte e da cultura não teria sido produzida e desenvolvida como foi. E, creio eu, os piores e melhores matizes da natureza humana seriam revelados da mesma forma, sem a necessidade de nenhuma revelação maior. Com ou sem Deus, ainda somos humanos, demasiadamente humanos, para nossa graça e desgraça. Deus é mais um reflexo de nossa criação imperfeita.


Texto: Adrilles Jorge

Imagens:
Michelangelo, Capela Sistina, 1505-1514

1) A Criação de Adão
2) A Criação dos Astros
3) A Separação das Águas
4) A Separação da Luz e das Trevas
5) Detalhe do Juízo Final, Cristo Pantocrator

Referências:
Suma Teológica – São Tomás de Aquino
Confissões – Santo Agostinho
Ética Demonstrada à Maneira dos Geômatras – Espinoza
Além do Bem e do Mal – Nietzsche
Deus: um delírio – Richard Dawkins
A Bíblia – vários

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