Da onírica desnatureza da realidade do sonho

por Homero Nunes
Apontamentos sobre a (des)construção do sonho n’O Grande Gatsby e em Morangos Silvestres
por Adrilles Jorge

Todo sonho, ou para ser menos piegas, todo projeto idealizado esbarra em dois entraves: o primeiro, o clichê de ordem psicanalítica: o do ideal que se dissipa em sua realização, que se dissipa na insaciabilidade humana. E o segundo, de ordem transcendental: todo sonho é baseado em premissas muitas vezes vagas, enviesadas, por mais concreto que seja. Mas inutilizando o sonho por causa de suas bases frágeis, sobra a fragilidade de uma realidade sem sonho. E toda realidade é a projeção subjetiva de quem a observa. E a realidade, por sua vez, sem o sonho de quem a observa (e a sonha) nada mais é que o esboço de um pesadelo árido, sem ideal.
Dois exemplinhos explicativos da natureza movediça do sonho real na história da arte: em O Grande Gatsby, romance de Scott Fitzgerald, temos o sujeito que constrói toda a sua vida através de um sonho romântico, construir um império financeiro pra impressionar uma ex-namorada e reconquistar aquilo que ele acha que seria a paixão ideal de sua vida. Mas o sonho de um esbarra na realidade do outro. Nunca fica claro no romance se a moça em questão realmente gostou tanto assim de Gatsby. E mais: nunca fica claro se ela volta aos braços de Gatsby por interesse calculista ou por afeto. E no fim da história, fica sim claro que na primeira oportunidade a moçoila pouco sonhadora abandona Gatsby ao relento, diante da primeira dificuldade que se lhe impõe no meio do caminho. O sonho de Gatsby era vazio, talvez? Mas foi o sonho que lhe moveu, que o fez construir sua fortuna e sua vida, ainda que o sentido de toda esta construção lhe escapasse no final. E qual sonho não é assim lúdico e feérico em seu intento inicial? E que vida se sustenta sem sonho, ainda que vazio?
Pelo avesso, temos o personagem Isak Borg, do filme Morangos Silvestres, de Bergman, que inicia com um pesadelo simbólico: um homem renomado e respeitável no fim de sua vida que construiu toda a sua existência metodicamente nunca cedendo a impulsos sentimentais e tendo um rígido código ético de conduta que impõe a si e aos demais em sua volta. E que percebe que esta sua mesma rigidez, esta mesma severidade afastou afetivamente todos em seu redor. Sua objetividade árida o privou exatamente da possibilidade do sonho que suplanta os códigos de uma realidade precisa, realidade esta cuja precisão nada mais é que produto de um olhar de quem a observa. A tragédia: ao fim de sua vida, Borg percebe que talvez seja tarde demais para sonhar. E que o sonho, o ideal talvez seja a única coisa que dê sentido não à realidade mas à própria vida.

Projetos, ideais, sonhos constroem vidas. E vidas – por sua natureza movediça – esvaziam projetos, sonhos e ideais. Compensam os sonhos? Não compensa a vida? Ou compensa a vida por algo mais que ela mesma?
Adrilles Jorge
Compensa:
 F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby, 1925
 Ingmar Bergman, Morangos Silvestres,1957
Duas adaptações do Grande Gatsby para o cinema:
De 1974, dirigido por Jack Clayton, roteiro adaptado por Francis Ford Coppola, com Robert Redford e Mia Farrow.

De 2013, em cartaz, dirigido por Baz Luhrmann, com o Leonardo DiCaprio.
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