Canibalismo cultural evolucionista

por Homero Nunes

por Adrilles Jorge

A teoria darwiniana da evolução das espécies que diz respeito à sobrevivência do mais forte, do melhor ou do mais adaptável às circunstâncias de vida tem também sua aplicabilidade no mundo cultural: vence e sobrevive quem for melhor. A despeito do chiamento perene das vozes antropólogas e socializantes que querem socializar uma mesma essência humana a toda a história da civilização, quem e o que fica historicamente são valores e obras e atos que tentam elevar a condição humana a uma tentativa de melhoria do que ela é em sua natureza mesma. Não é por acaso que um Beethoven sobrevive historicamente a um grupo Pop, ou que um Shakespeare fica por cima de qualquer autor contemporâneo de autoajuda ou mesmo que uma civilização inteira, ainda que com todos os seus vícios, como a europeia, tenha mais lastro em seus códigos éticos e morais que uma miríade de costumes de tribos indígenas e subgêneros primitivos. A apologia de uma ação humanista que seja, eivada de contradições internas, como o tal “amar ao próximo e respeitá-lo como a si mesmo” tem mais reverberações para o aprimoramento humano que uma superstição de abraçar uma árvore e proclamá-la um deus, por exemplo, e subsiste mesmo à adoração beatífica ocidental de ícones e quinquilharias simbólicas, posto que o primitivismo tem suas ramificações até na mais pretensiosa civilização. Por mais que um Lévi-Strauss diga que na essência os seres humanos são os mesmos, não importando a cultura, é na aplicabilidade desta mesma essência que nos diferenciamos. Ou seja, a cultura específica importa sim senhor. É na aplicabilidade desta tal essência que tentamos melhorar, transcender o que temos de mais falho da imanência desta essência. Não é a toa que o cristianismo, com suas virtudes e erros, com sua metafísica e também suas superstições dogmáticas , na equação de seus erros e acertos, tenha uma disseminação e uma relevância histórica, filosófica, comportamental e cultural maior que, sei lá, uma cosmologia( pra usar um termo antipaticamente ocidental) de uma tribo ianomami ou mesmo uma tradição Guarani-Kaiowá, que ultimamente embala tantos adeptos virtuais e do mundo da moda que nada sabem de sua tradição, que provavelmente sequer será lembrada ou esquecida, porque nunca foi nem será amplamente conhecida, dada sua irrelevância (a não ser talvez no plano fashion) para a hegemônica corte ocidentalizada.

Sting e Raoni
Respeitar uma cultura não quer dizer impor a fórceps a sua sobrevivência, assim como impor a ela a pecha de inferior não é pecado mortal, apenas uma constatação de um lícito juízo de valor. Culturas inteiras, civilizações inteiras morrem, na maioria das vezes não por colonizações brutais, mas darwinianamente por falta de adaptação ou de valor intrínseco mesmo ou são engolidas por movimentos históricos, independente da etnia de origem ou da gritaria de antropólogos, racialistas ou de qualquer outro tipo de bandeira ideológica ou assessoria de imprensa, ou movimento de rede social. Olhem só o exemplo clássico dos índios no Brasil: a maioria dos ditos indígenas de origem é perfeitamente adaptada ao modo de vida ocidentalizado (ainda que tenham status de cultura à parte e irresponsabilidades e inimputabilidades afins) da tal aldeia brasileira, que nem é tão respeitável assim do ponto de vista histórico cultural mas que ao menos não sucumbe a certos vícios de origem tribais, como o assassinato de recém-nascidos com síndrome de Down, executados pelos ianomamis ou pela precariedade matemática dos nambiquaras, que só sabiam contar até quatro. A essência precária humana é a mesma, mas a tentativa de melhoria é melhorzinha no mundo ocidental e mesmo os bons selvagens aculturados a antropofagilizados sabem disto quando compram geladeiras, DVD’s, celulares ou quando percebem que o valor de uma pessoa não é inerente à sua condição física ou que as quatro operações matemáticas geram maiores lucros na vida prática. Uma cultura maior absorve uma menor, uma cultura melhor engole uma menor, como um tatu come um cadáver. É assim que a coisa vai.

Jean Manzon – “Aldeia Xavante” – Revista “O Cruzeiro”, 1944
PS.: vale lembrar que os romanos com toda sua força física foram culturalmente colonizados pela sua colônia grega. O tacape, o arco-e-flecha e a bomba atômica podem ter sua cacetada momentânea, mas a longo prazo o que fica é o que há de mais interessante e melhor.

PS.II: O evolucionismo cultural de que falo é algo inerente à cultura especificamente. A aplicabilidade específica ao homem, à sua constituição física por assim dizer, é um troço que eventualmente pode resvalar no etnocentrismo, coisa que foi utilizada perfidamente pelo nazismo. Eu acredito num modelo evolucionista cultural, focado na ação e no pensamento humano, não em sua etnia de origem. No mais, falar de etnia de origem em nossa época de misturebas transnacionais e transgeracionais é esquizofrenia racialista de gente que defende regime de cotas e políticas afirmativas étnicas, por exemplo. As raças se misturam, os corpos se misturam, as culturas se mesclam e desta mescla última nasce alguma coisa melhor e mais ampla historicamente. O que evolui no homem é principalmente seu modo de viver e de ver e não sua cauda de jacaré. Quem preserva um certo purismo tribal é que fomenta o etnocentrismo. Eu sou pela suruba antropofágica e contra o regime de cotas e castas e purismos afins.

Adrilles Jorge

Compensa:
Tristes Trópicos
Claude Lévi-Strauss

O Povo Brasileiro
Darcy Ribeiro

A Origem das Espécies
Charles Darwin



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