Breve genealogia amorosa

por Homero Nunes

por Adrilles Jorge

Rezam os cafajestes que o amor romântico, que sacraliza o outro com afetos eternos é justamente uma invenção do romantismo do século 19. Pura balela cafajeste. No banquete de Platão, Aristófanes já dizia que sei lá que deidade separou um ser uno em dois e assim, as duas partes seriam condenadas a se procurar para promover uma espécie de encaixe perdido. Nada mais romântico que isto. Ok que Platão vai argumentar que o amor é antes o amor pela falta de uma verdade essencial que escapava à matéria e que o amor carnal, humano, era uma maneira de ascender a esta verdade suprema. Mas o fato é que, depois da queda dos religiosismos e mitologismos e outras desconstruções do que venha a ser a tal verdade absoluta, o que restou mesmo é a busca pelo meio, ou seja, pelo corpo, pelo ser que nos falta. Daí vem o perigo de que, na falta de sei lá que verdade suprema ou de outro deus em potencial, a gente possa sacralizar o tal amor romântico como sendo essencial à nossa subsistência. Mas se não é, à falta de um possível caminho de emancipação divina, o que será? Se o amor é uma criação cultural, o que afinal de contas, não é? Ora, o desejo também é em certa medida uma criação oriunda do amor romântico. Na masturbação, a pessoa se livra de sua concupiscência. Então pra que procurar outra pessoa? Por um fetiche? Talvez. Mas justamente um fetiche afetivo, amoroso, uma costela do amor romântico. Ou seja, até o mais canalha dos cafajestes tem esta necessidade de um outro ser que eternize esta sua falta de outro ser, nem que seja pelo espaço de um orgasmo. Invenção por invenção, a mais sublime invenção cultural continua a ser a amorosa…
Recentemente, o que pode ser percebido é uma certa pragmatização do amor romântico. Esta ideia de eternização do amor a dois é germinada pelo cristianismo, que insiste nesta mania platônica de eternidade (das ideias, dos corpos, dos céus ou do que já seja) e quer enfiar a efemeridade humana num pacote celestial e atemporal, assim como amor, que por sua vez, é fabricado como a eternidade. Por aqui e acolá, inconscientemente, já se torce o nariz para a transcendência amorosa, ainda que se satisfaça com seus apelos periféricos. Explico: é supimpa saborear o momento de projeção eterna de um sentimento amoroso, mas um tanto quanto inviável embalar sua sobrevivência eterna, capiscam? Pode-se acreditar em amor eterno, mas creio complicado crer em um casamento eterno. O que a paixão uniu, o cotidiano mata para todo o sempre.
Não se trata aqui de aceder aos progressitas liberais do amor e voltar aos tempos pré-históricos (supremo paradoxo), em que ninguém tinha pai nem mãe e que todos furunfavam afetivamente num imenso surubão familiar. A civilização nos ensinou, mal ou bem, amar com um cuidado mais seletivo. Escolhemos nossos parceiros, nossos erros mais afetivos e particulares. Só não escolhemos, infelizmente, o tempo exato da eternização de nossos amores.


Imagens:
1) Hugh Douglas Hamilton, Eros & Psyche, 1792-1793
2) Edvard Munch, Eros & Psyche, 1907
3) François-Edouard Picot, Eros & Psyche, 1819
4) Benjamin West, Eros & Psyche, 1808




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