Arte como aristocracia de eleitos: um conceito anti-democrático

por Homero Nunes

Por Adrilles Jorge


Arte é a palavra mais conspurcada e vulgarizada do século XX até os tempos atuais. Culpa da democracia. Este negócio de achar que a igualdade de direitos e oportunidades padroniza também as aptidões e os talentos individuais acabou por reverberar num imbróglio que faz com que pagodeiros, jogadores de futebol, bicheiros, cafetões, acadêmicos e outros profissionais liberais sejam considerados “artistas”’, devido às suas respectivas competências em suas áreas. O engodo democratizante pressupõe que todos têm ou teriam aptidões artísticas em potencial. Não têm, amiguinhos. O princípio do talento artístico é dado arbitrariamente a uns pouquíssimos, de maneira aristocrática e quase divina, sem outorgar direitos e deveres iguais à turba. Sim, eventualmente, os talentos podem ser lapidados ou desperdiçados de acordo com as circunstâncias culturais e sociais em que vive o artista embrionário mas ainda assim não nascem artistas de primeira grandeza pelo treino acadêmico, como não nascem medíocres ou picaretas pela prática acumulada. Arte, em princípio, envolve a criação de uma obra com valores estéticos que impliquem um ideário emocional e perceptivo que, por sua vez, incite as consciências dos espectadores. Só o conceito eliminaria toda uma sorte de confusões, como achar que um chute a gol é obra de arte ou que publicidade tem valor artístico. Mas até mesmo a academia, dada a sua esquerdização popularesca nas últimas décadas, entrou no surubão democratizante artístico com fins espúrios, claro, justamente para arrogar valor artístico à crítica de arte. Não bastassem “artistas jogadores de futebol”, temos a ponte (o crítico) que se supõe castelo (artista). Sim, é um pouco injusto dizer que o conceito de crítico-artista nasceu apenas de nossos tempos (embora tenha sido reiterado neles), porque já desde Platão a inveja grassava entre os filósofos que pensavam mas não conseguiam conceber nem uma catarsezinha em seus leitores. Não à toa, Platão expulsou os artistas de sua republiqueta ideal pra posar de rei-filósofo incontestável e reservou a eles um lugarzinho decorativo no processo educacional de seus meninos gregos. Pura invejinha e falta de capacidade de antever a expansão dos limites da arte de um sujeito que pensava demais e intuía de menos-coisa que só um artista sabe fazer de maneira grandiloquente.


Um artista eventualmente pode também ser a ponte pra si mesmo e exemplos pululam neste sentido, como T.S. Eliot, Proust, Joyce e centenas de outros que estabeleceram em suas obras uma metalinguagem tão articulada que elucida a própria concepção artística. Mas esta é dádiva de artistas que eventualmente se arvoram em críticos, não o avesso. Filosofia, futebol, esporte, sexo, corte e costura, academicismo são bons entretenimentos para o corpo e a alma, mas não arte. Mesmo a imitação da arte em seus domínios e em suas sete formas clássicas não alcança os píncaros de uma obra de arte que faça jus ao nome. Como diferenciar a arte de sua imitação? Ensaios históricos, sociológicos, pesquisa qualitativa, quantitativa, etnográfica? Nada disto. Apenas o bom e velho bom senso. Diferenciar Beethoven de Amado Batista ou Shakespeare de Paulo Coelho não é tão difícil quanto um acadêmico lhe diz, juro. O problema é que a democratização do conceito de arte se expandiu até os domínios daquilo que Harold Bloom brilhantemente chamou de “escola do ressentimento” que diz, entre outras barbaridades, que Flaubert só teria mais talento que algum músico mameluco porque era francês e representativo da “alta cultura”. Tudo farofada esquerdóide popularesca. O cânone artístico nasce de sua potencialidade e de sua permanência pela tradição histórica, não por apontamento de crítico janota. Proust e Eliot, por exemplo, eram considerados por boa parte de críticos culturais marxistas (ainda existe este tipo de coisa?) como representantes de uma “arte burguesa” que não visava a libertação dos valores capitalistas. Mais um exemplo da inveja da certa parte da crítica que pretende nortear os caminhos da arte; e mais um exemplo de autores que permaneceram e se tornaram canônicos a despeito da incompreensão da inteligentsiade suas épocas. André Gide, um grande autor, torceu o nariz para “la recherche” de Proust, quando o leu de primeira vez. Ou seja, mesmo representantes do que se chama pejorativamente (por alguns, não eu) de “alta cultura” erram no julgamento de seus semelhantes em suas respectivas épocas, por erro de leitura ou mesmo por um pinguinho de inveja. No mais, sejamos francos: a única cultura que realmente importa e que eventualmente produziu valores artísticos elevados é a chamada alta cultura, que concebe a grande arte. Deixemos os atabaques da cultura pop para a diversão das crianças e o gozo de alguns críticos e pseudo-artistas ressentidos. Democracia é negócio supimpa pra governar (mesmo com seus percalços popularescos) mas seus méritos não colam nada bem com a meritocracia artística.
Compensa:
Harold Bloom, O Cânone Ocidental
Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido
Em sete volumes

Compensa baixar:
T. S. Elliot, The Waste Land
Platão, A República
Em que o filósofo bota os artistas pra fora do coreto.
*Imagens:
1- O Narciso de Caravaggio e a colagem de sucata de Vik Muniz
2- A Vênus de Botticelli e a colagem de sucata de Vik Muniz

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