A preguiça como método

por Homero Nunes

Por Adrilles Jorge

 
A preguiça é a base estrutural do comportamento e do pensamento brasileiro. Não me entenda mal, preguiçoso leitor. Vários nambiquaras da terrinha, bem sabemos, trabalham e se esforçam pra burro, mas alicerçam seu trabalho no modus operandi e vivendi da preguiça como conceito filosófico de existência. A preguiça como base do ceticismo filosófico tupiniquim: a crença profunda brasileira no nada como garantia de que com um jeitinho, possa-se fazer ou, principalmente, se obter algo por quase nada mesmo.
Assim filosófica, folclórica e literariamente: quando Brás Cubas afirmava orgulhosamente no final da história de Machado que nunca ganhara o pão com o suor do rosto, estava estabelecendo um preceito ideológico fundamental do brasileiro comum, quer seja no conceito ou na ação: a de vingança contra a ética bíblica de São Paulo. Pra que se sustentar e se promover com o trabalho, este conceito originário de um instrumento de tortura romano (tripalium, no latim), se se pode usufruir das benesses da terrinha por outros modos de exploração? Não, leitor preguiçoso, não me entenda mal novamente: a preguiça e a exploração assim “destrabalhada” das benesses sociais requerem paradoxalmente muito trabalho, ou muito jeito: há que se fazer muito esforço para conquistar o ócio produtivo, como no caso de Brás ou mesmo no de Macunaíma que brandia seu “ai, que preguiça” folclorizando a resignação cética do brasileiro comum.
Até na rebeldia, o brasileiro se insurge de modo calculadamente preguiçoso. Na casa grande e senzala de Gilberto Freyre, está lá a faceira e calculada resignação e complacência do escravo sob o patriarcado escravocrata, desde a agregação político- social do escravo no seio da família do opressor à malemolência sexual das negras com os pálidos donzelos filhos de senhores de engenho, emprenhando a nossa conhecida e propalada mestiçagem e nossa (um pouco preguiçosa também) democracia racial.
Esta preguiçosa cordialidade entre opressores e oprimidos vem de longe. Está lá esmiuçada nas raízes do Brasil no conceito de homem cordial brasileiro, de Sérgio Buarque de Holanda, na  cordialidade jeitosinha – no jeitinho – com que o brasileiro dribla as regras da civilização, mesclando benefícios privados com certos vícios públicos, efeito sentido até com as melhores intenções, como, por exemplo, a do talentoso compositor Chico Buarque, filho de Sérgio, que durante anos combateu a ditadura para eleger um governo democrático que garantisse algumas benesses culturais estatais a ele, Chico, patrocinadas por sua irmã ministra. A família Buarque também cordialíssima, vejam só.
Enfim, toda esta parcimoniosa e cordial preguiça endêmica brasileira, para além de seu folclore romântico, responde por vários dos aspectos sociais atemporais mefistofelicamente ideologizados de nossa tribo. A complacência resignada e pragmática com a corrupção, que bem medida e com resultados de melhoria pontual do cidadão é livremente tolerada (e votada) no país, ou, mais recente, na política de cotas que substituiu este arcaico preceito (romântico?) de mérito por uma doce compensação às vítimas do passado, compensadas presentemente através de outras pessoas pela preguiça meritocrática do presente.
E compensação, como bem sabe o prestimoso e preguiçoso (no ambíguo sentido do termo, claro) leitor, é a base clássica do mérito do preguiçoso.
Compensa:
Machado de Assis
 
Casa grade e Senzala
Gilberto Freyre
Sérgio Buarque de Holanda
 
Macunaíma
Mário de Andrade
Macunaíma, o filme
Joaquim Pedro de Andrade, 1969
 
 

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