A história progressiva da humilhação do homem

por Homero Nunes
por Adrilles Jorge

Toda a história da civilização, que compreende dizer a história da ciência e da filosofia, é a história de uma progressiva humilhação do homem. Do centro do criação, criatura feita por Deus à sua imagem e semelhança, o homem virou descendente do macaco, habitante de uma Terra que, antes vista como centro do universo, passou a ser morada da periferia da via láctea, uma, dentre bilhões de galáxias. Do centro do universo, o homem então teve a compensação de perceber a razão e se descobriu centro possível ao menos de si mesmo, pela percepção socrática. 


Não demorou muitos séculos para que o homem se descobrisse excêntrico, desprovido de seu próprio eixo e centro gravitacional e mero boneco de seu inconsciente, descoberto por Freud e a psicanálise. Escravo de seus desejos em plano que ele desconhecia, para birra de Kant que cismava inocentemente em libertar o homem de suas pulsões naturais, pobre coitado… Nem mesmo o pensamento lógico sobreviveu. Do cogito cartesiano “penso logo existo”, sobrou só a existência duvidosa. A linguística transformou o sujeito em um sujeitado aos elementos da linguagem que limita o próprio homem que a criou. Lacan, que contestou até mesmo a interpretação literária simbólica do inconscientemente freudiano, respondeu a Descartes: “(também) penso onde não existo; portanto existo onde não penso.” Ou seja: o homem já não seria o que é, lá onde ele seria apenas o joguete de seu próprio pensamento, o boneco maleável pela estrutura de uma linguagem e de uma cultura que cria uma personalidade, bem como seus desejos e pensamentos. 


Em suma, a história do pensamento não se cansa de colocar o homem em seu devido lugar, sendo este devido lugar cada vez menor. Resta a pergunta: compensa tanto assim o pensamento? Primatas são imortais por não terem a consciência de sua mortalidade. E se dilaceram vez por outra, mas sem a crueldade definida por ideologismos afins e vivem em igualdade de direitos, respeitadas as devidas diferenças naturais entre eles. Já a gente pensa – historicamente, continuamente – desde a nossa gênese, em nossa pequenez continuada. Primeiramente subjugados por Deus, que nos amparava e oprimia e agora subjugados por nós mesmos, que não deciframos sequer o nosso pensamento e decidimos – livremente? – que nosso pensamento sequer é livre em si.

Imagens:
1) Autorretrato de Gustave Courbet, “O Desesperado”, 1844-45
2) Desenho de Leonardo Da Vinci, “O Homem Vitruviano”, 1490
3) M.C. Escher, “Laço de União”, 1956

As referências compensam:
Platão, Apologia de Sócrates


Descartes, Discurso do Método


Kant, Crítica da Razão Prática


Freud, O Mal-Estar na Civilização


Os Escritos de Lacan




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