A história das idéias como plágio escamoteado

por Homero Nunes

por Adrilles Jorge

A Escola de Atenas, Rafael Sanzio, 1509-10
A história, assim como os seus frutos que reverberam no comportamento humano, é feita de equívocos, distorções e escamoteamentos, não exatamente de um progresso contínuo. O cristianismo, exemplo máximo dos que abundam, é pai da sociedade moderna, com seus valores de respeito, tolerância, amor ao próximo e patati patatá. Mas tanto a sociedade quanto a filosofia ou renegam ou abraçam e distorcem o Cristo à maneira de suas conveniências e inconveniências, quer seja pela exploração religiosa que vende Cristo a preço de banana para o populacho (como uma banana cara aos fiéis, como é o caso da maior parte dos pentecolismos evangélicos contemporâneos) ou enfia a banana à força na goela de outras culturas ditas primitivas, como foi o caso das cruzadas empreendidas pela Igreja católica, ou o renegam mas seguem suas diretrizes, como a maior parte dos ateus militantes do humanismo cristão. Ou seja, crucificam o pobre do Cristo ou pela assimilação distorcida e interessada ou pela negação freudiana do pai (e olhem que Freud também o negou, hein?). Mas para não puxar a sardinha do Cristo, o cristianismo também, há que se salientar, sugou um bocado de Platão que foi diluído para o populacho. As noções platônicas de mundo ideal e mundo real foram adaptadas para a mitologia religiosa de céu e inferno. E o humanismo altruísta e abnegado e cristão nada mais é que uma versão empastelada do amor desinteressado platônico, cuja epifania é o amor ao saber- só é mau quem é ignorante, dizia Platão, e repetiram Cristo, São Paulo, Santo Agostinho, São Tomás e outros carolas, muito espertamente, sem citar a fonte.

Platão e Aristóteles em meio aos filósofos de várias épocas
O negócio é que o tal humanismo platônico-cristão colou, distorcido, explorado, equivocado que seja. E nesta tal progressão continuada do roubo e da distorção histórica conceitual, pode-se dizer que nasce também o princípio de todos os socialismos, que se insurgem contra a pérfida natureza humana, representas pelo capitalismo, onde o mais forte come o mais fraco, como na natureza em si, sem humanidade envolvida. O socialismo é uma tentativa de santificação da natureza humana. Ora, o que predicava o exemplo cristão? Ir contra a própria essência humana, ir contra as aspirações mais instintivas pessoais que são a conquista de seus desejos a qualquer custo. Os santos todos seguiram nesta linha cristã, se entregando com deleite quase sexual à tortura de se despojar de seus desejos para se entregar em sacrifício a um (suposto) aprimoramento da humanidade. Assim foi com a tentativa de derrocada do capital. Mas eis que mais uma vez, a distorção impera e, chupando Platão por um lado, que tinha ranço de democracia, os vieses socialistas vieram a ser historicamente autocráticos, querendo, como quis a Igreja católica, enfiar sua ideologia pela goela de seus crentes e não crentes. Hitler, o desumanista-mor da história, em um dos discursos de fundação do partido nazista (Nacional Socialista, para os íntimos) dizia querer eliminar a qualquer custo a “injustiça e a exploração dos mais fracos”, vejam só. Platão não era realmente exatamente um democrata: acreditava piamente no despotismo esclarecido, em que um rei-filósofo governaria, com certo enfado tolerante pela plebe a quem o cristianismo, por sua vez, denominava de leigos, com o mesmo desdém platônico complacente à salvação de seus ignaros ordenhados. E Deus, nesta linha, seria soberano, um rei filósofo metafísico representado pelo poder papal, que tiranizaria a todos pelo princípio do amor divino. Por vezes, a própria natureza do que é historicamente distorcido se empresta a distorções por sua essência mesma, não?

Adrilles Jorge
A Escola de Atenas é um afresco na parede da Stanza della Segnatura, no Vaticano

Coluna: Elucubrações Antropofágicas

www.facebook.com/issocompensa


Sobre os autores

Acompanhe