Os deboches satânicos: intolerantes intoleráveis e a agressão do humor

por Adrilles Jorge
Pode-se tolerar tudo, desde que o tolerado não se torne intolerável ou intolerante com o tolerador. Assim em tudo, desde a tolerância ao chato, às religiões ou a qualquer manifestação de revelação de verdade absoluta que não tolere sua contradição. Já encheu os pacovás esta tolerância complacente ao radicalismo islâmico que impede e manda pro cadafalso qualquer tentativa de contestação às suas verdades estabelecidas. Não é por falta – mas por excesso – de tolerância que se percebe o aumento de atos terroristas ou excrescências como decretos de morte a quem se coloca à margem da tradição muçulmana.
Toda religião tem, claro, uma certa tendência autocrática fundamentalista, uma vez que toda religião se declara como verdade revelada e manda pro fogo da heresia qualquer dúvida em contrário. Mas a história e o progresso tratam de acalmar os ânimos. Assim foi com o cristianismo, por exemplo, que depois de séculos de matanças e perseguições aos não crentes, aquietou o faixo e tornou-se complacente às contraditas de seus contestadores e até mesmo às escorregadelas de seus fiéis. Caricaturas de Jesus, piadas sobre judeus, deboches de Deus são exercidos aos borbotões no mundo ocidental e ninguém é mais mandado pra fogueira por causa disto.
 
No Brasil, muito se reclama dos católicos frouxos, que são crentes até a metade, dando uma mordiscadela em alguma ou outra crendice aqui e acolá, não se aferrando aos dogmas cristãos com fidelidade canina. Pra mim isto é um avanço. A religiosidade com um pé atrás é uma contradição que dá muito certo na esfera do comportamento civilizado e na prática mesma da religiosidade. Alguma transcendência é necessária no combate ao tédio do materialismo. Já o dogmatismo sectário é coisa de bárbaros primitivos. Já passa da hora do islamismo se amoldar aos novos tempos e baixar a bola. E também já passa da hora do mundo civilizado parar de tolerar o intolerável e ficar passando a mão na cabecinha de radicais que mandam qualquer tipo de tolerância democrática às favas. A solução contra o radicalismo não é excesso de respeito, mas justamente o aumento do deboche, a agressão do humor. Estão certíssimos os veículos de comunicação europeus que responderam às manifestações de terror contra o vídeo que ironiza Maomé publicando charges que debocham do profeta. O deboche é um meio de expressão válido numa sociedade democrática, quer se trate de uma filosofia, de política, de religião ou de qualquer outra coisa.

Décadas de excesso de tolerância já levaram o mundo a duas guerras mundiais; em escala cotidiana, tempos de excesso de tolerância já provocaram enfartos e cânceres, surras e explosões afins por encheção abusiva de saquitel. Ceder à ditadura do intolerável, proibindo charges de deboche ao islã ou sendo complacente a decretos de morte por blasfêmia contra Maomé ou coisas do tipo é o mesmo que uma esposa que tenta justificar as surras cotidianas do marido por tolerância democrática do convívio. É preciso saber dizer chega. (Só espero que não decretem a minha morte por mais esta blasfêmia).

Adrilles Jorge


Imagens:

1) Allan Sieber
2) Charlie Hebdo
3) BanksyTítulo do post:
Corruptela do título de “Os Versos Satânicos”, de Salman Rushdie, 1988.

Salman Rushdie foi condenado à morte por blasfêmia, por ofender o Islam, e teve que viver na clandestinidade por muitos anos após a publicação de “Os Versos Satânicos”. Ainda hoje ele anda com cuidado nas escadas, sempre olhando para trás, com medo de algum fanático fazer cumprir sua sentença.


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