Eminência parda: Grigoriy Yefimovich RASPUTIN

por Homero Nunes
Grigoriy Yefimovich Rasputin (1869 – 1916)

 

Mexendo e remexendo poções, o bruxo buscava uma solução capaz de apaziguar as úlceras de vez. Bicarbonato de sódio e leite de magnésia não mais faziam efeito. A vodka acompanhada de embutidos defumados piorava a situação, mas como evitá-los? No frio da última nevasca o álcool era a lareira de dentro, enquanto a madeira dos móveis ardia naquela do canto da sala. Pensamentos insistentes, em ricochetes, tiravam-lhe o sono tanto quanto o refluxo gástrico e a dor nas paredes do estômago. Era necessário sussurrar mais uma vez nos ouvidos do czar. A czarina já estava convencida, no suor da cama era fácil convencê-la, mas aqueles malditos conselheiros, parentes e sanguessugas padrão, teimavam em minar sua influência sobre Nicolau II. A Rússia parecia se desintegrar em insatisfação, o poder estava ameaçado, a guerra batia nas fronteiras e os tais malditos só se preocupavam com sua atividade sexual e orgias místicas. Para ele, isso era apenas necessidade básica, tarado de pênis enorme e fama de insaciável; mas para as mal-amadas senhoras da corte, era uma experiência sublime, uma benção que as tirava do tédio de uma vida de aparências. Faziam espera por ele. Os maridos se retorciam de ódio e queriam, de todo o jeito, acabar com a eminência parda da dinastia Romanov. Contudo, Rasputin era protegido do czar e, pior, da czarina, Alexandra Feodorovna. O Bruxo até então conduzira com maestria seu teatro de cordas, lançando ideias e plantando dúvidas, apontando direções e projetando miragens, definindo a interpretação dos fatos.
Quando o dia nasceu, lá pelas 10 da manhã, desceu as escadas e foi ter com Nicolau II: o fim está próximo. Atentar-nos-ão contra a vida. Siam’ tuti morti. O mais vil dos seres entrará por estas portas e as dirão derrubadas. Uma imensa mancha escarlate cobrirá nossa história. O czar ouvindo tudo pela terceira ou quarta vez, disse-lhe: caro monge, o fim terá que esperar. A mãe Rússia é maior que todos nós. Tenho um dia atarefado e hoje precisarei de conselhos práticos, deixo os metafísicos para o fim da semana. Venha a mim no dia de Vênus. A Insatisfação pulsava nos olhos de Rasputin, mas Nicolau sabia de coisas além, a guerra na Europa reestruturava os poderes, o povo era incitado por ideias vermelhas e seus inimigos o espreitavam de perto. Às 18:30 daquela tarde escura, começaram os preparativos para o jantar no palácio de Moika, a louça foi disposta, a prataria lustrada, as velas dos candelabros foram acesas e um servente teve sua missão bem programada: serviria uma taça com um especial vinho, tinto, ao místico do czar. No início da noite, com os convidados já sentados, o príncipe Yussupov, mentor do complô contra Rasputin, ergueu uma taça e propôs um brinde: às cores dos Romanov! Todos beberam. O bruxo tomou toda a taça em um gole só. Minutos depois cambaleou em direção à sacada, vomitando. Sua úlcera ou seu coquetel antiácido o salvaram do veneno. Mas era tarde demais, foi tomado pela guarda do príncipe e levado aos jardins. Tentou fugir, mas foi alvejado pelas costas. Mais outros tiros foram disparados. Rasputin ainda sobreviveu, tossindo sangue enquanto cortavam-lhe o famigerado e enorme pênis. Golpe derradeiro, foi enrolado em um cobertor e jogado no semi-congelado rio Neva. Em sua autópsia, descobriram água nos pulmões, o que apontava morte por afogamento. Ele ainda estava vivo, depois de envenenado, espancado, fuzilado e castrado, quando caiu no rio. Seu pênis descomunal teria sido conservado em um vidro de formol e hoje estaria no museu erótico de São Petersburgo. Se é o verdadeiro ou não, há controvérsias, contudo, o museu o exibe em destaque como o enorme pênis do bruxo que sussurrava aos ouvidos do czar, ou melhor, da czarina. Sinistro.

Rasputin morreu em 1916. Após a Revolução Russa, em 1917, o escarlate dos comunistas cobriu a Rússia. O Czar foi derrubado. Depois, o mais vil dos homens, o também sinistro Stalin, ocupou o lugar máximo no país e continuou derramando sangue. O Domingo Sangrento, considerado o fato mais sanguinário do governo de Nicolau II, seria pouco perto dos milhões executados por Stalin. 

Coluna: Não Compensa

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