Do que as mulheres jamais saberão que querem

por Adrilles Jorge
A clássica pergunta de Freud “o que afinal querem as mulheres?” é um tanto machista. Pela simples razão de que ninguém razoavelmente inteligente sabe bem o que quer. A interrogação e a consequente construção (artificial, provisória) do desejo é um questionamento da condição humana mesma. As mulheres simplesmente se questionam mais vivamente e com um estilo mais exacerbado que os homens. E chamam a isto histeria. Ora, patologia mesmo é a normalidade num mundinho cada vez mais histérico como o nosso.
Mas o fato é que a tal emancipação feminina não melhorou em nada a tradicional condição estilística da histeria feminina. Por questões objetivas. O clássico conceito de fragilidade feminina sempre se manteve em consonância com o caráter provedor e protetor masculino. É a tradicional simbiose sexual entre os sexos. Liberadas as moças, sexualmente, socialmente, trabalhisticamente, a tal fragilidade em seu estado cru foi pras cucuias. Mas permanece em estado latente. Mulheres inconscientemente ainda fantasiam com o mito do homem provedor, protetor, que dirige, cuida, mata um leão todo dia, trabalha para o sustento da prole, enfrenta os agressores e oferece uma rosa à sua donzela. Mas este mito provedor, coitado, foi justamente castrado pela emancipação das moças em seu estado mais caricato, o do feminismo. Então a fragilidade morta socialmente da mulher se (des)encontra com a natureza (morta e castrada) do homem provedor. Da histeria feminina proveniente de tamanho desencontro, encontramos uma mútua esquizofrenia sexo-afetiva entre mulheres e homens.
 
Um ex-casal amigo meu teve uma separação sintomática e elucidativa desta falta de elucidação entre os papéis sexuais. Ela de repente quis se separar. Ele, confuso, redarguiu: “mas semana passada você dizia me amar!”. Ao que ela, em sua sinceridade cortante e cruel (a sinceridade quase nunca é generosa em si), respondeu de pronto: “eu estava tentando me convencer de que te amava; você não é o príncipe encantado (sim, a expressão foi esta) que eu queria”. Ele era um sujeito endinheirado, boa pessoa, bem aparentado, socialmente agradável. Ela só se esqueceu de um detalhe: apaixonar-se pelo dito cujo. Já contava com seus trinta anos a moça e acabou por casar-se com a instituição do casamento, não com o sujeito em si, que era mero protótipo de um homem ideal que se desidealizou com as projeções de outros ideais em construção.
Outra amiga minha, jovem e extraordinariamente bem-sucedida profissionalmente e financeiramente, teve uma recente volta com uma paixão adolescente. Achou-o agora desinteressante, sem assunto, tedioso, opaco e vazio. Na verdade sempre fora assim o dito cujo, ela me disse. Mas se desesperava agora em não encontrar mais os mesmos sentimentos da felicidade pueril da adolescência que viveu com ele. “Tenho um afeto imenso por ele e um desprezo do mesmo tamanho”. “Aliás”, arremata: “tenho desprezado todos os homens por quem me apaixono”. Emblemático: não saber o que se quer e desprezar o que se tem.
 
Assim a coisa vai. Os papéis se renovam, as atuações se reforçam no intuito de recuperar um ideal morto. As intenções e desejos permanecem atados a uma construção romântica de um tempo póstumo. Moças ainda se casam ou namoram com a ideia de casamento, de achar um homem ideal. Mas este ideal masculino foi castrado pela emancipação feminina, que enxerga no “homem provedor” o predador da liberação das moças. O que causa um efeito duplo: a histeria feminina contemporânea e extemporânea clássica arraigada aos novos tempos somada ao “embananamento” dos homens, que a reboque da confusão feminina perdem completamente a definição de seu papel. Provedores castrados, não sabem se se situam entre machos provedores (machistas para o jargão feminista) ou coitados desconstruídos e frágeis em sua dissolução social, ou mesmo cornos e broxas em potencial, quando não esboços caricatos de cafajestes viris e insensíveis (que algumas várias mulheres preferem, apesar do discurso social em contrário). Sim, o homem é hoje a incorporação viva do novo sexo frágil. As mulheres continuam, na maioria, sem saber o que querem. Mas com uma enorme força nesta interrogação.
 
Imagens: pinturas de Edward Hopper
 
 
 

Sobre os autores

Acompanhe