Fausto, Blues, Rock e a Maldição de Robert Johnson

por Homero Nunes

Em uma encruzilhada empoeirada, nos anos 30, Robert Johnson vendeu a alma em troca do talento no Blues. Do trato com o Diabo, nos moldes do Fausto de Goethe, germinou a semente do rock e a maldição dos 27 anos.

 

Prefiro o céu pelo clima e o inferno pela companhia.”

Mark Twain

 

Jimi Hendrix engasgado no próprio vômito, Janis Joplin no chão com o nariz quebrado e 4 dólares na mão, Jim Morrison na banheira e no Père-Lachaise, Brian Jones boiando na piscina, Kurt Cobain estourando os miolos, Amy Winehouse seguindo o esquema, afogada em álcool e drogas. Todos aos 27, a idade de Robert Johnson.

Daquele pacto, naquela encruzilhada do Mississippi, a criatividade se rendeu ao excesso e o Coisa-Ruim nunca mais parou de coletar as almas dos diabolicamente talentosos, aos 27, envenenados por álcool e drogas. A maldição de Robert Johnson.

 

Quem sou eu? Parte da força que, empenhada no mal, o bem promove.

Mefistófeles

Goethe. Fausto. 1808

 

Nascido na lama do Mississippi, 1911, filho da pobreza e de pai que abandona mãe, o jovem Robert Johnson aprendeu a mudar de padrasto, casa, cidade e de sobrevivência de tempos em tempos. Trabalhou cedo onde deu, fez de tudo um pouco. Antes de completar os 18, 1929, casou-se com o primeiro amor. Perdeu-a no parto do primeiro filho, morto. Um blue de cortar a vida.

 

 

Aprendeu a beber e a tocar gaita e viola com os velhos curtidos na tristeza, no blues. Deles herdou, da solidão, a capacidade de acompanhar a si mesmo, batendo os pés no chão, marcando o ritmo na caixa acústica do assoalho. Logo viu que ganhar a vida nos bares, perto das mulheres e do Bourbon, era menos doloroso que nos campos de algodão, que lhe feriam os dedos mais que as cordas dos instrumentos.

Casou-se de novo, mas, sem filhos, a abandonou no algodão no sentido do Delta do Mississippi, afundando-se na lama do blues. Já na foz, convivendo com bluezeiros de todas as margens do velho, longo e caudaloso rio, juntou-se à terceira mulher e adotou o esperado filho. Um dia também ele choraria os blues do pai, seguindo carreira na música.

 

 

Entre a família e as estradas, o sagrado e o profano, nos caminhos cruzados, Robert Johnson criou o mito dele mesmo. Marketing pessoal, diriam os malditos consultores e treinadores de carreiras. Com músicas como “Me and the Devil”, “Crossroad Blues” e “Hellhound on my Trail”, ele dizia que o Diabo andava ao seu lado, que batia na mulher sem motivos, exaltava a encruzilhada e pedia perdão a Deus, chutava o cão do inferno no seu caminho. Mais ainda, tocava pelo penhor da alma. Blues tão bons que só o sobrenatural podia explicar: era o diabo!

 

Please allow me to introduce myself

I’m a man of wealth and taste

I’ve been around for a long, long years

Stole many a man’s soul and Faith…

Rolling Stones. Sympathy for the Devil. 1968

 

Com uma gota de sangue, num papel qualquer, desde o Fausto de Goethe, o Diabo sela o contrato. Dá o êxtase da vida em troca da danação da alma. Prazeres mundanos, vaidade, luxúria, inteligência e talento. Na concorrência com Deus, promete tirar os obstáculos, pavimentar os caminhos, criar oportunidades, corrigir a sorte. Há muito no ofício de penhorar almas e roubar a fé, o Coisa-Ruim tem predileção pelos artistas, poetas malditos e músicos geniais. Gosta mesmo da boa música, da gula das boas comidas, das mulheres más, do cigarrinho do Capeta, da água que passarinho não bebe, dos espíritos soltos e das ideias contestadoras, enfim, de tudo aquilo que faz desse mundo um lugar mais divertido e interessante. Também o saber das coisas, o fogo roubado do Olimpo, os frutos proibidos do conhecimento, a filosofia filha da dúvida e aquilo que a razão afirma em detrimento da fé, a ciência. O Capiroto é das coisas finas, sujeito de riqueza e gosto.

 

 

Não fosse assim, só com rezas, terços e ladainhas, o mundo seria mesmo o tal vale de lágrimas. Contudo, demorou muito para o Demônio amadurecer no caminho do rock. Famoso por ser o primeiro revolucionário a lutar contra o sistema, por tentar Jesus no deserto, assombrar a Idade Média, criar a mais-valia e os impostos retidos no contracheque, o Canhoto só começaria a cair nas graças da juventude transviada ao promover a trilha sonora mais quente do século XX.

Justiça seja feita, também o doutor Fausto já o tinha lançado nos braços do romantismo, nas flores de Baudelaire, nos abismos de Nietzsche; contudo, Mefistófeles só seria o astro da cultura pop com o advento do rádio, do LP, do Walkman, do Ipod. Da mídia. O pulo do gato, ou melhor, o avanço do cão foi quando ele investiu em Robert Johnson, na atitude, no visual, na rebeldia, no rock n’ roll!

 

 

Entendamo-nos bem. Não ponho eu mira

na posse do que o mundo alcunha gozos.

O que preciso e quero é atordoar-me.

Dr. Fausto

Goethe. Fausto. 1808.

 

O Diabo cumpriu sua parte no acordo e deu ao Mr. Johnson a genialidade do Blues. Da lama do Mississippi brotaram a lenda e as 29 músicas que transformaram Robert Johnson no “mais importante bluesman da história” (Clapton). 29 músicas gravadas. Em apenas duas sessões, 1936 e 37, gravou 41 faixas, repetindo 12 músicas. Em 1938 o Diabo cobrou sua dívida.

 

 

Aliás, sobre a cobrança da alma, dizia o Dr. Fausto (Goethe) que Lúcifer só pode pegar seu quinhão quando consegue elevar seu sócio à experiência mais sublime, ao momento que o embasbacado de tamanha satisfação queira parar o tempo. Assim foi.

Robert Johnson estava no auge, ganhando dinheiro, vivendo de música, aplausos e suspiros para o seu lado. Numa noite daquelas, num flerte com a mulher do dono do estabelecimento, o Diabo assoprou nos ouvidos do marido. Deu-lhe a visão, tirou-lhe a razão. O sujeito magoado, enraivecido, planejou o mal feito. O Coisa-Ruim encostado no canto, com aquele sorriso cínico no rosto, cigarro aceso e baforadas. O penhor veio na forma de uísque com estricnina, copo que Johnson bebeu com regalo. Há quem diga que foi avisado, mas confiou no Diabo. Morreu três dias depois, aos 27 anos, rebentando a maldição de Robert Johnson.

Muito talento, excessos, álcool e o veneno correndo no sangue. Sexo, drogas e rock n’ roll. Mas tudo a prazo, no crediário, em prestações eternas: “aproveita primeiro e paga depois, chefia”. O lugar está marcado, a hospedagem garantida, o inferno é pessoal.

 

 

“Clapton is God”

Falou-se tanto aqui do outro que cabe uma pequena nota a Deus. Não se sabe como, mas Eric Clapton sobreviveu à maldição. Talvez o maior e mais famoso fã de Robert Johnson, Clapton continua vivo para contar a história. Gravou disco com as músicas do cara – “Me and Mr. Johnson” – fez shows dedicados a ele e lançou um ótimo filme com as “Sessions for Robert Johnson”. Em depoimento, reforçou a lenda dizendo que ele é “o mais importante músico de blues que já viveu”. Um elogio de “Deus” ao trabalho do Capeta. O Tinhoso deve ter ficado lisonjeado. Deve ser isso.

 

O diabo é o pai do rock

Enquanto Freud explica

O diabo dá os toques

Raul Seixas

 

 

por Homero Nunes

Coluna Música

facebook.com/issocompensa

 

 


Sobre os autores

Acompanhe