O espírito sonoro de John Coltrane

por Homero Nunes
por Homero Nunes
John Coltrane nasceu com um nome sonoro, pronto para a carreira artística, em 23 de setembro de 1926. Coltrane, “Soultrane”, “Trane” apenas. Há quem goste do cara apenas pelo sobrenome que causa aquele impacto nas conversas sobre música: John Col-trane, “cool-train” (“trem bão”, no mineirês). Mas além da retórica que impressiona o aborígene, o impacto do sujeito na história foi mesmo o estilo livre no sax, acordes, extensões, camadas e tudo mais que o instrumento pode soprar na alma. Um sujeito de espírito mais sonoro que o nome.
John Coltrane no Guggenheim Museum, NYC, 1960 – Foto por William Claxton
Morreu cedo, aos 40, após de cumprir a tarefa da originalidade e se tornar um dos maiores saxofonistas da era do Jazz. Aos vinte e poucos, o menino já tocava com os grandes: Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Miles Davis. Em menos de duas décadas, nos anos 50 e 60, até o câncer, soprou frases eternas do estilo, acordes definitivos do sax. Experimentou, pesquisou, escreveu, reinventou tudo.
John Coltrane e Dizzy Gillespie
Começou escutando a mãe no coral da igreja, sob a rigidez da educação que o velho reverendo imprimia aos seus, naquele fim de mundo do interior da Carolina do Norte. Quando morreu o pastor, o garoto de 13 anos já tocava clarinete na escola e, poucos anos depois, experimentava o sax alto na Filadélfia, a terra prometida da mãe viúva gospel. Em 1945 entrou para a Marinha, serviço digno de endireitar rapazes, afinando mais uma vez o som do clarinete que acordava as tropas. Quando pediu baixa, era em tempo de soprar o alto e pescar as gorjetas nos baldes dos bares, tentar ser descoberto. Foi, foi sim.
John Coltrane e Miles Davis
Aos 21 anos começou a tocar ao lado do pássaro, Bird, Charlie Parker. Consumido pelo gênio, não dava para rivalizar no mesmo instrumento, o sax alto de antes. Entrou com tudo no tenor, o saxofone do seu sucesso. Daí foi coadjuvante de Dizzy Gillespie, circulou pelo universo das big bands, acompanhou o piano de Thelonious Monk e a voz de Dinah Washington e, por fim e nunca menos importante, tornou-se a quinta parte daquele imortal “Miles Davis Quintet”. Diversos discos e gravações, dezenas deles, mais de 100 álbuns em participações, contratos e acompanhamentos, shows e montantes bancários depois, seguiu solo também, adiante.
Com Miles Davis gravou “Kind of Blue” (1959), o mais influente álbum do mestre, considerado com o merecido exagero um dos melhores discos já gravados… de todos os tempos, estilos, artistas e mundos conhecidos. Uma joia rara da modalidade, o diamante de Miles Davis. Sozinho, com seu próprio grupo, gravou “Blue Train” (1957) e “A Love Supreme” (1964), seu próprio quinhão de riqueza. Dois blues definitivos e um amor supremo, para tocar no meu enterro.
Desde cedo, imitando os vícios dos ídolos e patrões, foi tomado por goles e picadas, álcool e heroína. Frequentador assíduo do fundo do poço. Abandonado e por vezes resgatado, recaído e deixado, desistido, emergia com energia na música, melhor, mais sofrido como exigia o blues que tocava, o Jazz. Enfim, sobreviveu por um tempo, encontrando força espiritual em diversas religiões e múltiplos deuses.
De infância protestante, foi flertar com Alá e o Corão, depois com rituais africanos e bonecos vodu, xamãs, meditou com os budistas, queimou incensos no hinduísmo, jogou a cabala, estudou filosofia antiga, a flauta de Sócrates e a caverna de Platão, o cinismo e o epicurismo. Trouxe o espírito para o som, misturou influências clássicas da música ocidental com as tradicionais da música oriental, buscando a audição dos benditos e as notas dos que tem fé. Meditação, transe, ritmos hipnóticos, extensões complexas.
Entrou numas, levitando improvisações, experimentando com intensidade, assumindo os perigos da vanguarda. De tanto pesquisar e dilatar as sonoridades que o saxofone nem sabia que podia, desagradou os puristas, apanhou dos críticos, encalhou nas gravadoras. Enfim, decaiu em si mesmo até o câncer tomar conta. Era demais para os ouvidos dos simples mortais. Eles só viriam a entendê-lo após a morte precoce, quando John Coltrane virou santo, um milagre do Jazz.
Sem eufemismos, na Igreja Ortodoxa Africana John Coltrane, que existe há 43 anos em Los Angeles, o santo mais cultuado é ele, o sujeito que tem sonoridade no espírito e até no nome de batismo. Ele está no meio de nós.

John Coltrane *23 de setembro de 1926 + 17 de julho de 1967

Coluna: Música



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