Leonard Cohen no fio sombrio da poesia

por Homero Nunes

por Anderson, A. B.

Like a bird on the wire,
like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free.
 
 
Nos anos 90 o diretor Oliver Stone (com um roteiro de Quentin Tarantino) estarrece o mundo com o “road psychopathic freaky thriller” Natural Born Killers (Assassinos por natureza). Considerado um dos mais controversos filmes da história, odiado e cultuado, traz em sua trilha sonora duas canções de Leonard Cohen: Waiting for a miracle  The future. O sucesso global do filme apresenta a voz já grave e sombria de Leonard Cohen para as grandes massas.
The Dark Eminence (A Eminência Sombria) como passa a ser conhecido, chama a atenção de celebridades como Kurt Cobain que manifestava seu interesse pela música de Leonad Cohen na canção Penny Royal Tea…Give me a Leonard Cohen afterworld So I can sigh eternally…  
Tardiamente, jovens de todas as idades se atentam para a poesia musicada do velho enchapelado, acompanhando enfim a admiração que ele conquistara desde muito entre artistas e intelectuais e grupos de meia dúzia de boêmios desencantados. A partir daí sua carreira é marcada por performances dramáticas em que o público experimentava o contato com um artista que transcendera genialidade.  A experiência de assistir a um concerto de Cohen, por muitos, era comparada a um êxtase espiritual. 
Como vinho, como whisky, “com um pássaro no fio” ou “um bêbado no coral”, Leonard Cohen melhorou com o tempo. Produziu até o fim: seu último trabalho You want it darker foi lançado 21 dias antes da sua morte, como uma melancólica despedida, em outubro de 2016.
No dia 10 de novembro de 2016 silencia-se definitivamente em Los Angeles, um dos mais influentes artistas de sua geração. Deixando ainda mais sombrio o ano em que também partiu David Bowie. A ausência da voz grave incomparável do poeta genial deixa órfãos intelectuais, músicos e uma miríade diversa de fanáticos mundo afora. E lamentam, ainda de forma mais intensa, quem realmente compreende o significado do que seja “a música além da música”. 
 
O Rei cigano amante de Suzanne estava preparado para morrer. Seu único anseio era “para que não acontecesse de forma muito desconfortável”. No ano mais tenebroso do começo do século, torna-se imortal o homem cujo legado influenciou um enorme número de mentes criativas (i.e. artistas e intelectuais) do final do século.

Leonard Norman Cohen nasceu em 21 de setembro de 1934, em Westmount, Quebec, numa família Judia originária da Polônia. Perdeu o pai aos nove anos e carregou a dor consigo durante quase toda a vida. Bebeu do cálice de Garcia Lorca na adolescência. Flertou com a literatura, publicou poemas em 1956 (Let Us Compare Mythologies). Êxito mundial em 1961 (The Spice Box of Earth). Poeta e romancista consagrado, retornou da Europa, para os Estados para investigar o cenário “Folk” emergente. Ganhou mais notoriedade após o sucesso das gravações de “Suzanne” e “Dress Rehearsal Rag” por Judy Collins em 1966. Encontrou seu centro criativo na música.  Aclamado como compositor (e.g. The Velvet Underground, Andy Warhol) e inspirado pela cantora alemã Nico lançou o “excêntrico” álbum Songs of Leonard Cohen em 1967.



Depois foi para Grécia viver o romance com Mariane, a garota da contra-capa de Songs from a room, de 1969. Produzido por David Crosby, o disco trazia nada menos que “Bird on The Wire”, a música que se tornou obrigatória nos shows, regravada por mais de 30 grandes músicos como Johnny Cash, Willie Nelson, Joe Cocker, Dave Van Ronk, Madeleine Peyroux e mais. 

Em 1971 o álbum Songs of love and hate é recebido com entusiasmo pelos artistas, intelectuais e principalmente os músicos. Também em 71, fez a trilha sonora do faroeste “McCabe & Mrs. Miller” (no Brasil, “Jogos e Trapaças – Quando os Homens São Homens”), dirigido por Robert Altman. A trilha continha três canções extraordinárias do primeiro álbum de Cohen, “The Stranger Song”, “Sisters of Mercy” e “Winter Lady”.

1984 foi o ano de “Hallelujah”, uma toada gospel-folk que alcançou enorme sucesso, com inúmeras regravações. A mais famosa é aquela de Jeff Buckley, 10 anos depois, em 1994. Em 1998 foi a vez de I’m your man também chancelado pela Columbia Records, gravadora com a qual trabalharia para o resto da vida. 

Seguiu gravando e fazendo shows até a derradeira tournée mundial em 2012, aos 78 anos, Old Ideas. Em 2014, aos 80 anos lançou o álbum Popular Problems e aos 82, às vésperas da morte em 2016, You want it darker, produzido pelo seu filho Adam Cohen. O último suspiro em forma de disco, dos 40 que lançou para a imortalidade. Goodbye old friend, see you down the road

por Anderson, A.B.

Coluna: Música
 
 
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