Caetano, quer queiram quer não, o mais completo músico popular do mundo

por Homero Nunes

Por Rodrigo Morais

Se você tem uma idéia incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado só é possível
Filosofar em alemão
(Língua, 1984)

Muito provavelmente você o considera um chato. Talvez um sujeito inconveniente. Quiçá uma bicha enrustida e espalhafatosa, se é que isso é possível. Pouco importa. O fato é que Caetano Veloso, independente de sua personalidade estridente, pode ser considerado como o músico popular mais completo do Brasil, se não do mundo. Quer você leitor queira, quer você não queira. Por quê? Simples: salvo engano, nenhum outro músico, seja ele de nacionalidade norte-americana, cubana ou inglesa (os únicos países cuja música popular faz frente à brasileira), conseguiu reunir, a um só tempo, os atributos de grande melodista, grande letrista e grande intérprete. Grandes nomes da música ocidental possuem ou possuíram um ou dois desses atributos muito bem desenvolvidos, mas quase nenhum os três. 


 Alguém poderia objetar que Caetano Veloso não é tão bom melodista quanto o foram Tom Jobim ou Carlos Lyra. OK. Mas ele é quase tão bom quanto eles, o que já é muito. Outra objeção óbvia: ele não seria tão bom letrista quanto o foram Chico Buarque ou Vinícius de Moraes. OK de novo. Mas o contra-argumento permanece o mesmo: ele é quase tão bom quanto eles. Aliás, em relação a Vinícius, eu diria não ser nenhum exagero dar a primazia ao verbo de Caetano. Terceira objeção: ele não seria tão bom intérprete quanto o foram, sei lá, João Gilberto ou Milton Nascimento. OK mais uma vez. Mas… bem, vocês já entenderam. Ao fim e ao cabo, um músico que reúne semelhante gama de qualidades, não pode, jamais, ser subestimado, apesar da má vontade que seu nome costuma despertar nos incautos.


O problema é que Caetano, tal qual outros artistas brasileiros excepcionais, como Oswald de Andrade ou Nelson Rodrigues, criou toda uma mitologia em torno de si, tornando-se uma verdadeira personagem pública. Vantagens à parte, pois elas existem, esse tipo de atitude midiática costuma cobrar seu preço, a ser pago na mesma moeda do figurão que emite opinião sobre todos e sobre tudo (seja pelo gosto da polêmica, seja pela ânsia da estilização fácil): a incompreensão. Pouquíssimos são os que conseguem separar o homem Caetano Veloso de sua arte, e olha que o músico, natural de Santo Amaro da Purificação (BA), possui um rol de pelo menos umas cinquenta canções extraordinárias, compostas sozinho ou em parceria. Malgrado tamanho mérito, sua persona, normalmente tida como impertinente, enquanto Caetano estiver vivo, sempre haverá de se interpor entre seu cancioneiro (o que de fato importa) e o julgamento crítico (ou, melhor seria dizer, acrítico) de sua assistência.


Para finalizar o post, seria de grande valia, acredito, lembrar o leitor, em especial aquele que ainda implica com Caetano, de que este ano há uma importante efeméride relacionada à sua obra, que são os quarenta anos do lançamento de Transa (1972), normalmente considerado o melhor álbum de sua longa carreira – embora ele considere Livro, de 1997, superior. Misturando letras compostas em inglês e português, Transa foi gravado na Inglaterra na época do exílio de Caetano e de Gilberto Gil, pouco antes de o primeiro voltar para o Brasil. Devido à pressa de Caetano em retornar à terra natal, o álbum acabou, infelizmente, não sendo lançado na Europa, algo que, suponho, poderia ter maximizado seu já consolidado renome no exterior. De todo modo, ao que parece, o álbum está para ser relançado, em luxuoso acabamento, tanto no formato CD quanto no vinil. De uma certa forma, Transa seria uma espécie de síntese perfeita do músico que tão bem soube se apropriar de, basicamente, três tradições em tese díspares: a música brasileira pré-Bossa Nova (Vicente Celestino, Lupicínio Rodrigues etc.), a própria Bossa Nova e o pop-rock dos Beatles e outras bandas inglesas. Como Caetano entrará para a história por aquilo que cantou e não por aquilo que disse, que o leitor desavisado não se faça de rogado e ouça-o, nem que seja para me desmentir e, assim, embasar melhor seu preconceito (sic). 

por Rodrigo Morais




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