Bethânia, Opinião e o Carcará

por Homero Nunes
por Rodrigo Morais
Maria Bethânia cantando Carcará. Um momento antológico do musical Opinião, captado pelas lentes do grande cineasta carioca Paulo César Sarraceni, em 1965. Produzido pelo Grupo Opinião e estreado em 11 de dezembro de 1964, somente oito meses após o golpe civil-militar que depôs João Goulart, o espetáculo acabou se tornando, por diversos motivos, um poderoso elemento aglutinador das esquerdas reformistas contra o desânimo geral que se abateu sobre elas após a imposição daquele regime de exceção. Segundo Roberto Schwarz, em um ensaio chamado Notas Sobre Cultura e Política 1964-1969, ele teria sido um dos responsáveis por criar uma cultura hegemônica de esquerda no Brasil mesmo sob a égide de um governo rigorosamente de direita. Essa hegemonia, conforme o título do trabalho revela, duraria até 1969, quando o AI-5, apertando o garrote de vez, finalmente conseguiu estrangulá-la.
Formado, em sua maioria, por artistas ligados ao PCB, organização à época adepta da tese conhecida como “frente única”, segundo a qual, muito sumariamente, a superação das adversidades (políticas e econômicas) só se efetivaria se todos os setores progressistas da sociedade brasileira se unissem, sem distinção de classe social, a obra inaugural do Grupo Opinião poderia ser caracterizada como reformista por excelência. Isso do ponto de vista político, claro. Processado artisticamente, tal pensamento se materializou, por exemplo, na escolha do elenco do espetáculo, formado por João do Vale, Zé Kéti e Nara Leão, um representando, respectivamente, o pobre sertanejo, o outro o pobre das grandes cidades e a terceira a classe média urbana. Maria Bethânia, que aqui (vídeo acima) se vê com 18 anos cantando a siderada canção Carcará, de João do Vale e José Cândido, entrou posteriormente no lugar de Nara Leão, confundindo um pouquinho a questão das classes mas acrescentando, talvez, maior força expressiva à interpretação antes consagrada por Nara (vídeo abaixo), que, diga-se de passagem, é também de altíssima qualidade.  
Roteirizado por Oduvaldo Vianna Filho, Armando Costa e Paulo Pontes e dirigido por Augusto Boal, Opinião intercalava músicas de gêneros variados com relatos autobiográficos dos três cantores, enunciando, por meio de alusões de estratégico duplo sentido, o repúdio ao quadro político vigente. No vídeo aqui reproduzido, atente-se à imagem em close up, logo no início, de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, um dos maiores dramaturgos da história do teatro brasileiro, muito precocemente desaparecido (apenas 38 anos de idade). No Rio de Janeiro, Opinião ficou em cartaz no Teatro de Arena do Super Shopping Center, localizado em Copacabana. Ao se transferir para São Paulo, em abril de 1965, cumpriu temporada no Teatro Ruth Escobar, dando início, até certo ponto, ao histórico ciclo dos musicais do Teatro de Arena de São Paulo, dos quais fizeram parte os sempre lembrados Arena Conta Zumbi (1965) e Arena Conta Tiradentes (1967), todos com direção de Augusto Boal.

por Rodrigo Morais

Coluna: Música



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