Kafka em cartas de amor à Milena

por Homero Nunes
Por Adrilles Jorge


Kafka, além de genial ficcionista, era um singular e extraordinário missivista. Nas cartas à Milena Jesenska, paixão mal resolvida sua (como tudo o mais em sua vida), prova que só os neuróticos e obsessivos sabem amar com estilo, grandeza e grandiloquência verbal. A dor neurastênica é um bem extraordinário se bem acompanhado pela vida atormentada por negativas, culpas e, claro, um grande talento para condensar tudo isto em grande arte. Infelizes das Polianas alegrinhas de plantão que não assimilam a volúpia epifânica do sofrimento redentor. Cá abaixo, dois excertos das cartas de Kafka à Milena.
Milena Jesenska 1896 – 1944
Franz kafka 1883 – 1924

”… Muitas vezes tenho a impressão de que estivéssemos em uma sala com duas portas opostas, e cada qual tivesse segura a maçaneta de uma porta, e mal um de nós move as pálpebras já está o outro atrás de sua porta, e agora basta que o primeiro diga uma única palavra para que o outro feche sua porta atrás de si e desapareça. Voltará a abrir a porta, certamente, já que talvez seja uma sala que não se pode abandonar. Se pelo menos o primeiro não se parecesse tão exatamente ao segundo, se permanecesse quieto, se pelo menos aparentasse não olhar para o segundo, se se dedicasse a por lentamente em ordem o quarto, como se fosse um quarto como todos os outros; mas, em troca faz exatamente o mesmo que o outro junto a sua porta, às vezes encontram-se ambos cada um atrás de sua porta, e a formosa sala fica vazia.”

”… Estamos jogando um jogo infantil, eu me arrasto pela sombra, de uma árvore à outra, estamos em pleno caminho, você me chama, aponta-me os perigos, quer dar-me ânimo, desespera-se por ver meu passo vacilante, recorda-me (a mim!) a seriedade do jogo… não posso, desfaleço, já caí. Não posso ouvir ao mesmo tempo as vozes terríveis de meu interior e a sua, mas em troca posso ouvir apenas a sua e confiar em você, em você, como em ninguém mais no mundo.”

Seu, F

Compensa:
Kafka. Cartas a Milena. 1922

A Metamorfose, 1912
O Processo, 1914
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