Hemingway bebia aqui: uma aventura pelos bares de um escritor cosmopolita

por Homero Nunes
por Homero Nunes

Ernest Hemingway *21 de julho de 1899 + 02 de julho de 1961
Ernest Hemingway era alcoólatra. Gostava tanto dos bares e dos biri-nights, que os colecionava ao redor do mundo. Escolhia-os a dedo, pelos drinks servidos, pela música tocada e, sobretudo, pelos bêbados que lhe faziam companhia. Conversava muito, precisava da interlocução, ainda que mais falasse e pouco ouvia. Era preciso encontrar o lugar e a corja. Antro com garrafas e homens, aonde se podia ir a qualquer hora, sem escudeiro, sem convite, sem cerimônia. Tragos e rasgos, gente comum. Quando conquistava seu lugar ao balcão, tornava-se fiel frequentador. Não precisava experimentar outros se aquele lhe servia bem. Talvez mais um ou dois, com ambiente e copos a variar. Alguns se tornaram famosos pelo ilustre freguês, ainda hoje anotando pedidos e colhendo gorjetas por causa dele. Também um sem número de lugares que dizem que o Hemingway bebia por lá. Muito possível, pois ele bebia mesmo por toda parte, mas tantos pouco provável. Há inclusive um bar em Madrid, nos arcos da Plaza Maior, que exibe uma estranha placa com os dizeres: “aqui Hemingway nunca bebeu”.
Correspondente de guerra, cobrindo o “Dia D”, entrou em Paris com as tropas aliadas que libertaram a cidade, expulsando os últimos nazistas a pontapés. Reza a lenda que um dia antes, quando os alemães fugiam aos montes. Instalou-se no Ritz com sua tropa e tornou-se praticamente sócio do bar. Hemingway voltava ao hotel duas décadas após ter ocupado Paris com a geração perdida dos escritores americanos nos anos 20, dividindo mesas com F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Ford Madox Ford e a gang de “fracassados” que reinventaria a literatura no início do século. Na primeira vez, sem dinheiro nem fama, o bar do Ritz era coisa esporádica. Na Segunda Guerra, o ocupou como dono do pedaço. Sempre que voltou, as muitas vezes, sentia-se em casa, habitué. Hoje, o Ritz ostenta o bar com o nome dele, lembrando o ilustre sócio da época da guerra. Os preços equivalem à relação custo-fracasso da geração dos anos 20.

Quando o avião que levava Hemingway e a esposa em um vôo panorâmico no Alto Nilo caiu, podia ter sido o fim, mas ambos sobreviveram para a segunda queda no dia seguinte. Também o avião do resgate, que levaria o casal ao hospital, caiu em meio à savana africana. Cheios de escoriações e fedendo sangue, também poderiam ter virado comida de leões, hienas e outros bichos carniceiros. Dia da caça. Mas o resgate chegou a tempo. A África perdoava Hemingway pelos tiros disparados. E foram muitos, nas várias vezes que caçou e bebeu por lá. Não se sabe ao certo quantas tardes antes Hemingway passara no pequeno bar com vista para o Kilimanjaro – nem ao menos quais dores deram origem à gangrena do personagem d’As Neves do Kilimanjaro, ou se apenas os problemas intestinais que o tiraram de um safari certa vez… mas ainda hoje o bar dos caçadores no Parque do Serengueti exibe fotos, citações e a famosa placa dizendo que ali bebeu o escritor caçador. Como eram poucos os lugares a beber por lá à época, a tal placa tem credibilidade. Mama África.
Roma carrega 20 e tantos séculos de peso e história, mas, sinto muito, Veneza é a cidade mais apaixonante da Itália. Hemingway era apaixonado por Veneza. Hospedava-se no pequeno hotel na saída do Canalasso, pertinho da Piazza de São Marco, sobrado do Harry’s Bar. O lugar se tornou famoso por causa dele e, justamente por isso, é muito bem frequentado até hoje. Orson Welles, Truman Capote e Georges Braque que o digam. Indicação do “Papa” ninguém recusa. A vista de fora é maravilhosa, mas ironicamente, o escritor sentava-se em um canto do salão, entre duas paredes perpendiculares, como se esperando o atirador entrar sacando a arma no saloon. Sua mesa é lembrada nas selfies diante da famigerada plaquinha que indica o frequentador. Se em algum dia, por traição do destino ou espírito indomado, Veneza for romântica demais para você, lembre-se da saída de Hemingway: muito álcool no Harry’s Bar. Arrivederci!
O Nobel deve à Cuba O Velho e o Mar. A ilha de Fidel e do olhar romântico do Che em camisetas vermelhas, fora antes o refúgio de Hemingway. Na verdade, a despeito da famosa foto do escritor com Fidel em La Bodeguita del Medio, a Revolução Cubana significou o fim do paraíso do escritor. Em 1959 os barbudos entraram em Havana, em 1961 Hemingway deu-se um tiro na boca, de “dois canos longos”, puxando o gatilho da espingarda com o dedão do pé. Há quem diga que perder Cuba adiantou seu suicídio. Drama à parte, o fato é que até sair da ilha por causa da reviravolta política, o escritor tinha lá seu lugar preferido: praias maravilhosas, charutos, rum e a pescaria. Pescador de grandes peixes, obcecado pelo Marlim Azul, foi da convivência com os pescadores cubanos que nasceu a história do livro mais famoso e premiado (Nobel!) de Ernest Hemingway: O Velho e o Mar. Ah, mas ele não foi escrito sem muitas biritas nos bares de Havana. Ele guardava quarto no Hotel Ambos Mundos, cujo terraço se abre em mesas sobre Havana Velha. Privilégio ainda se hospedar por lá. Contudo, os bares favoritos eram dois: “El Floridita” e “La Bodeguita del Medio”, ambos em funcionamento, com as devidas homenagens em fotografias na parede. A Floridita ainda abusa da propaganda com a estátua em bronze escorada no balcão. Quem quiser pode tomar seu daiquiri junto à foto obrigatória. Alguns quarteirões dali, quase na antiga catedral da cidade, fica o boteco do meio, La Bodeguita del Medio. O almoço serve o clássico “moros y cristianos” – um “baião de dois” cubano, arroz e feijão preto – mas o que atraia escritor barbudo e continua atraindo todos mais é o melhor Mojitodo mundo (contando paisagem, atmosfera, história e rum cubano, claro). Lá, em destaque está o quadro com a frase autografada: “my mojito in la Bodeguita, my daiquiri in el Floridita”.

Acostumado ao calor selvagem e fugindo do frio civilizador, Hemingway montou residência na Flórida, em Key West. Casa com varanda, frutas no quintal, gatos soltos na área. Vidinha doméstica, mas nem tanto. Lá adotou o bar do Joe, o agora famoso por causa dele Sloppy Joe’s. Bebia tanto por lá que uma vez roubou o mictório dizendo ter direito a ele por tanta urina que fez ali, milhares de dólares gastos em secos Martinis. O urinol virou bebedor de gatos no jardim.  Dizem que era mais fácil achá-lo no Joe’s que em casa. Hoje, o bar engana turistas dizendo que o lugar era frequentado por Hemingway, mas, no entanto, mudou de endereço (mesma rua) no final dos anos 50, quando o escritor nem mais o frequentava. O nome e as bebidas são os mesmos.
Enfim, por todo lado, mundo afora, há quem diga que por ali bebia Hemingway. Em Madrid, a Casa Botín e a Cerveceria Alemana; em Pamplona, o Café Iruña; em Barcelona, o Marsella; em Paris, La Rotonde; em Nova York, o Costellos; na Cochinchina algum outro qualquer. Dos muitos bares, daqueles que se pode comprovar, ainda hoje é possível beber ao bom gosto de Hemingway. O desgraçado sabia escolher muito bem. E escrever como ninguém. Um brinde, alcoólico, à memória e à obra de Ernest Hemingway!


Compensa:


A Boa Vida Segundo Hemingway
Editado por A. E. Hotchner, tradução de Luis Fragoso. São Paulo: Larousse, 2008.




Papa Hemingway: a personal memoir

A. E. Hotchner, 1966.








Dos lugares e das palavras do próprio Hemingway:
Da Paris dos anos 20:
Paris é uma festa, 1964 (póstumo)
Da guerra:
Por Quem os Sinos Dobram, 1940
Da África:
As Neves do Kilimanjaro, 1932
De Veneza:
Na Outra Margem, Entre as Árvores, 1950
De Havana:
O Velho e o Mar, 1952
Da Flórida:
Ilhas na Corrente, 1970 (póstumo)



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