E.M. Cioran e os Silogismos da Amargura

por Homero Nunes
Só cultivam o aforismo os que conheceram
o medo no meio das palavras,
esse medo de desmoronar com todas as palavras.

Nos “Silogismos da Amargura”, E.M. Cioran, o filósofo amargurado do título e da vida, destila seu pessimismo em breves aforismos, com o máximo de significação e o mínimo de signos, em dez capítulos pequenos, cheios de frases curtas e pensamentos intensos. O livro é carregado de estocadas críticas, depressivas, ácidas que machucam temas como o absurdo da vida, a decadência da civilização, suicídio, religião, solidão, desespero etc., em capítulos denominados, por exemplo, de “a atrofia do verbo”, “o circo da solidão”, “as raízes do vazio”, “a vertigem da história” e coisas nessa linha. Às vezes corta o pensamento num afiado humor negro, ou melhor, sarcasmo… talvez cinismo ou niilismo ou tudo isso junto, combinado com metáforas desconcertantes e aquela visão cética do fracasso inevitável. Seu pensamento é original e doloroso, contudo contraditório, carregando a beleza poética da crítica à fealdade do mundo, em um estilo corrosivo que projeta imagens perigosas e vertigens existenciais. Inteligência perigosa na decadência da realidade.

 Emil Cioran (1911 – 1995)
Fracassar na vida é ter acesso à poesia – sem o suporte do talento.
Um monge e um açougueiro brigam no interior de cada desejo.
Há dois mil anos Jesus de Nazaré desconta em nós o fato de não ter morrido num sofá.
Perdi em contato com os homens todo o frescor de minhas neuroses.
Todo pensamento deveria lembrar a ruína de um sorriso.
Quem não conhece a humilhação ignora o que é chegar ao último grau de si mesmo.
O Real me dá asma.
A vida, esse mau gosto da matéria.
Concentrado no drama das glândulas, atento às confidências das mucosas, o Nojo nos transforma em fisiologistas.
Somos todos farsantes: sobrevivemos a nossos problemas.
Todas as águas são cor de afogamento.
O erro da filosofia é ser demasiado suportável.
A morte se espalha tanto, ocupa tanto lugar, que não sei mais onde morrer.
Como todo iconoclasta, destrocei meus ídolos para consagrar−me a seus restos.
A história das ideias é a história do rancor dos solitários.
Ser um Raskolnikov – sem a desculpa do homicídio.
O segredo de minha adaptação à vida? Mudei de desespero como quem muda de camisa.
Evolução: Prometeu, hoje em dia, seria deputado da oposição.
A criação foi o primeiro ato de sabotagem.
O que me dá a ilusão de jamais ter sido um iludido é que nunca amei nada sem ao mesmo tempo odiá-lo.
Só vivo porque posso morrer quando quiser; sem a ideia do suicídio já teria me matado há muito tempo.
No pessimista se combinam uma bondade ineficaz e uma maldade insatisfeita.
O grande crime da Dor é haver organizado o Caos, havê-lo convertido em universo.
Sobre um planeta que compõe seu epitáfio, tenhamos a dignidade suficiente para nos comportar como cadáveres amáveis.
Refutação do suicídio: não é deselegante abandonar um mundo que com tão boa vontade se pôs a serviço de nossa tristeza?
Sempre pensei que Diógenes havia sofrido, em sua juventude, algum acidente amoroso: ningúem escolhe a via do sarcasmo sem a ajuda de uma doença venérea ou de uma mulher intratável.
Desconfie dos que dão as costas ao amor, à ambição, à sociedade. Se vingarão por haver renunciado a isso.
O odor da criatura nos põe na pista de uma divindade fétida.
O pessimista deve inventar cada dia novas razões de existir: é uma vítima do “sentido” da vida.

Nos tormentos do intelecto há uma decência que dificilmente encontraríamos nos do coração. O ceticismo é a elegância da ansiedade.

Compensa:

 CIORAN, E.M. Silogismos da Amargura. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
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