Ariano Suassuna: o último dos grandes autores modernos

por Homero Nunes
por Rodrigo Morais
 
“Acabou-se o Grilo mais inteligente do mundo. Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre.”
 
Foi-se o último grande dramaturgo do teatro brasileiro moderno, aquele que prevaleceu entre as décadas de quarenta e setenta do século passado. Protestante convertido ao catolicismo, Ariano Suassuna tornou-se nacionalmente conhecido em 1957, quando o Teatro Natal, um grupo amador de Pernambuco, excursionou pelo Rio de Janeiro e por São Paulo levando uma peça sua chamada O Auto da Compadecida. Retomando, em língua portuguesa, uma tradição teatral que remonta a Gil Vicente, ela se tornaria simplesmente a mais popular obra da história do teatro nacional, das pouquíssimas que qualquer analfabeto no assunto reconhece de imediato. Embora Suassuna se posicionasse como um simpático xenófobo, além de um intransigente defensor da cultura popular, sua produção teatral é recheada de influências eruditas estrangeiras. As principais seriam Calderón de La Barca, Plauto, Molière, Shakespeare e o já citado dramaturgo medieval português. Em certas circunstâncias, como em O Santo e a Porca, a influência, de tão flagrante, beirava o plágio puro e simples, nesse caso específico de uma comédia de Plauto chamada A Aulularia.
 
Sem querer restringir a obra de Suassuna ao teatro, o que seria um erro, na medida em que o autor paraibano produziu também romances e poemas de qualidade inconteste, outras peças de sua lavra que merecem uma citação nominal são: Auto de João da Cruz (1950), O Arco Desolado (1954), A Pena e a Lei (1959) e a Farsa da Boa Preguiça (1960). Analisadas em conjunto, compõem um quadro coerente e honesto na criação de um verdadeiro teatro popular católico entre nós. Ao morrer, Suassuna entrou para um panteão relativamente restrito, formado por Nelson Rodrigues, Jorge Andrade, Oduvaldo Vianna Filho, Gianfrancesco Guarnieri, Plínio Marcos e Dias Gomes, responsáveis por realizar, no palco, certos projetos idealizados na já quase centenária Semana de Arte Moderna. Como todos os seus colegas de geração, fará muita falta. Seria maravilhoso se pudéssemos tocar a gaitinha para trazê-lo de volta. Infelizmente, não podemos.
 
 
Adeus Suassuna!
 
A MOÇA CAETANA – A MORTE SERTANEJA
(Com tema de Deborah Brennand)
 
Eu vi a Morte, a moça Caetana,
com o Manto negro, rubro e amarelo.
Vi o inocente olhar, puro e perverso,
e os dentes de Coral da desumana.
Eu vi o Estrago, o bote, o ardor cruel,
os peitos fascinantes e esquisitos.
Na mão direita, a Cobra cascavel,
e na esquerda a Coral, rubi maldito.
Na fronte, uma coroa e o Gavião.
Nas espáduas, as Asas deslumbrantes
que, rufiando nas pedras do Sertão,
pairavam sobre Urtigas causticantes,
caules de prata, espinhos estrelados
e os cachos do meu Sangue iluminado.
Ariano Suassuna
*1927 +2014
 
Coluna: Teatro
 
 
 

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